O ouro vem de baixo

O ouro vem de baixo

Os brasileiros são atletas marcados pelas desigualdades, que treinaram com sacrifício e competiram com dignidade, suor e lágrimas, subindo ou não ao pódio.

Marco Aurélio Nogueira

09 de agosto de 2021 | 11h14

Foram belos, intensos e acirrados os jogos olímpicos de Tokyo 2020, encerrados ontem. Os brasileiros os acompanharam noites, madrugadas e manhãs adentro. Um bálsamo para um País que, em seu chão duro, em seu cotidiano sofrido, não só convive com uma pandemia impiedosa e desigualdades obscenas como tem de deglutir um governo tosco e desequilibrado, pilotado por um presidente que faz do cargo uma trincheira de agressão e vilania.

Houve competitividade e disputa intensa, mas não polarização, nem dissenso quanto a regras e resultados, nem muito menos ódio e violência. Os jogos deixaram evidente que o espírito olímpico prevaleceu e pode ir além das quadras, raias e piscinas. Que vençam os melhores, mas também os que mais lutaram, valendo-se ou não de artimanhas e estratagemas, jamais de chantagens e jogo sujo.

Ouros, pratas e bronzes à parte, as Olimpíadas mostraram bem a cara do povo brasileiro, que luta, sofre e persiste no dia a dia, convencido de que pode alcançar mais. É emocionante ver atletas carregados de carências de formação, dificuldades existenciais, falta de estrutura e pouco patrocínio competirem, de igual para igual, com os gigantes dos países desenvolvidos. Especialmente nas competições individuais, nas quais, com uma ou outra exceção, o corte da desigualdade é mais fundo e visível. Nas disputas coletivas, o futebol (masculino e feminino) é a exceção que confirma a regra. Dos garotos e garotas do skate ao atletismo, da ginástica ao surfe, do boxe à maratona e à canoagem, o que vemos são atletas que vieram de baixo, conviveram com obstáculos inacreditáveis, treinaram com sacrifício e competiram com dignidade, suor e lágrimas, subindo ou não ao pódio.

O Brasil se ressente da falta de uma política esportiva, que, em condições normais de civilidade, andaria junto com a política educacional e a política de saúde. Falta-nos muito, por mais que haja empenho institucional localizado. Governos fazem pouco. Nosso pódio como Estado e sociedade precisa ser galgado passo a passo, parece distante. Sua maior ferramenta, a democracia, ainda é instável e imperfeita, requer cuidados permanentes. Esta resistindo às intempéries políticas, mas precisamos ir além.

Os atletas brasileiros são a prova cabal de que é possível avançar em termos esportivos, com foco e dedicação. Fornecem uma metáfora da vida, para que pensemos no País que não se rende nem desiste, que aprendeu a viver um dia após o outro e sabe que o futuro depende de apoio, perseverança, dedicação e resiliência. São o retrato de um povo que olha para seus governantes com desconfiança, ingenuidade e entregas passionais, mas que na hora H tem sabido fazer escolhas com que vem conseguindo seguir em frente. Um povo que pode não compreender em profundidade o que se passa e o que fazem em seu nome, mas que sabe olhar no olho do que está ruim e reagir, resistindo.

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