O lado mais sombrio

O lado mais sombrio

Deverá aumentar o consenso formado no STF em defesa da Constituição e da dignidade da Presidência. As reações no Congresso se acumulam

Marco Aurélio Nogueira

04 de maio de 2020 | 12h49

O quadro está se fechando. Domingo, 3 de maio, o presidente da República participou de novo ato contra o Congresso e o STF, em Brasília. Repercutiu tudo em suas redes. Ameaçou: “Nós queremos o melhor para o nosso país. Queremos a independência verdadeira dos três poderes, e não apenas uma letra da Constituição, não queremos isso. Chega de interferência. Não vamos admitir mais interferência. Acabou a paciência. Vamos levar esse Brasil para frente.”

Atiçou o fogo. No ato, jornalistas foram ofendidos. O fotógrafo Dida Sampaio e o motorista que lhe dava apoio foram agredidos com socos e chutes por manifestantes. Informado, o presidente permaneceu na ofensiva: “Teria havido uma agressão lá. Teria havido. Não sei. Condenamos qualquer agressão. Não sei. Eu não vi nada. Recriminamos qualquer agressão que porventura tenha havido. Se houve agressão foi de algum infiltrado, algum maluco, deve ser punido”.

O clima sugere que o bolsonarismo, acuado, tenta armar um golpe para se prolongar no poder. O cais, o horror, a confusão, lhe são convenientes. Haveria mesmo 30% de cidadãos que apoiariam isso ou se mobilizariam para defender o presidente, levando o País para o precipício? Os políticos pisam em ovos, não têm como saber, não procuram saber. Não auscultam o coração do povo. O próprio povo não sabe bem o que pensar, o que fazer, deseja tocar a vida sem se preocupar com as artimanhas da política. Não entende que, para o bem e para o mal, será nas suas costas que a carga pesada cairá. A alienação dói, mas a dor não é localizada nem muito menos processada.

Pode-se esperar um aumento do consenso que parece ter se formado no STF em defesa da Constituição e da dignidade da Presidência. As reações no Congresso se acumulam, a indicar que piorou o ambiente para o presidente. Ninguém ganha com um governo que não está interessado em governar, que se debate sufocado por sua própria gosma venenosa, que destilou desde antes das eleições de 2018. É essa gosma que o protege em seu momento mais sombrio.

As FFAA estão no fogo cruzado. O presidente procura mobilizá-las, valendo-se do corporativismo que cultivou nas décadas em que foi parlamentar e dos generais que ocupam seu governo. Falou: “Vocês sabem que o povo está conosco, as Forças Armadas ao lado da lei, da ordem, da democracia, liberdade, também estão ao nosso lado. Vamos tocar o barco, peço a Deus que não tenhamos problema nessa semana, porque chegamos no limite, não tem mais conversa, daqui para frente, não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição, ela será cumprida a qualquer preço”, afirmou o presidente.

Fontes militares acusam Bolsonaro de tentar usar o prestígio das Forças Armadas. Não dá para saber o que pensa o Estado-Maior, a tropa, a média oficialidade, o generalato da ativa. Pode ser que germine por ali algum orgulho, um respeito à farda, uma sensação de que é preciso “cumprir o dever”. É uma incógnita. Mas as declarações militares são contrárias a qualquer golpe.

Enquanto as cartas vão sendo jogadas e os fatos políticos transcorrem, a pandemia corre desembestada. O país perdeu o controle sobre ela, o governo federal mostra sua incompetência e sua paralisia, tocado que está pelas obsessões bolsonaristas e por sua irresponsabilidade cívica.

O que virá amanhã, e depois de amanhã? A saída é incrementar a racionalidade democrática, combinando serenidade e indignação, preocupação, cautela e compromisso com o futuro. Ficou difícil.

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