O jogo agora é para valer

O jogo agora é para valer

Pesquisas mostram que, em São Paulo, disputa entre situação e oposição ainda não se definiu

Marco Aurélio Nogueira

20 de novembro de 2020 | 10h31

Realizadas entre os dias 16 e 18 de novembro, as pesquisas Ibope e DataFolha para o 2º turno em São Paulo empataram no registro de tendências. Bruno Covas, do PSDB, sai na frente com 47/48% das preferências, enquanto Guilherme Boulos, do PSOL, registra 35%. É uma foto dos primeiros momentos. O jogo, agora, começou para valer, com os jogadores correndo atrás da escolha final dos eleitores.

Os números sugerem que Covas dispõe de boa folga. Mas pesquisas não falam tudo, não captam a movimentação dos candidatos, nem a reflexão e a eventual mudança de orientação dos eleitores. Devem sofrer alterações nos próximos dias. Afinal, estamos em um processo dinâmico, de disputa de espaços, corações e mentes. Há cristalizações e ambas as pesquisas indicam que são poucos os indecisos e a grande maioria afirma que não mudará sua decisão. Mas as investidas dos candidatos podem alterar isso. As campanhas sempre podem cometer erros ou acertar o centro do alvo.

A disputa não é entre “esquerda” e “direita”. Covas tem um perfil de centro-esquerda, o petismo diminuiu de intensidade e o antipetismo parece ter sido arquivado. Mesmo assim, é inevitável que cálculos, análises, torcidas e projeções explorem a dualidade típica da política. Ela se mostra, em São Paulo, no formato situação vs oposição, contrapondo desejos de continuidade (que tende a ser estabilizadora) a desejos de mudança (que tende a ser disruptiva). O receio de que a mudança seja mais tensa e arriscada do que a continuidade choca-se com a vontade dos oposicionistas de terem uma cidade mais vibrante e menos desigual.

Isso significa que tanto Covas quanto Boulos precisam interagir com os eleitores moderados, que formam ampla maioria. À primeira vista, o atual prefeito está mais próximo deles, seja por ter resultados a apresentar, seja pela insistência na tese da “responsabilidade fiscal”, seja enfim por seu arco de alianças, no qual personalidades e partidos de centro, direita e esquerda democrática ajudam no diálogo com os eleitores moderados e passa a eles uma mensagem mais consistente. Covas dispõe também de um maior número de vereadores eleitos e mais afinados com sua aliança, que poderão ser um importante recurso eleitoral.

Mas esse o grupo moderado não é homogêneo e nem necessariamente refratário a Boulos. Se o candidato do PSOL conseguir ressignificar sua imagem, modificar a postura mais agressiva e modular seus compromissos programáticos, valendo-se da “paixão pela mudança” e da “rejeição a Doria”, poderá capturar franjas moderadas. Nas redes, por exemplo, estão sendo feitas manifestações de eleitores “moderados” que fogem de Covas por não aceitarem o que há de “podre” em seu “entorno”, a começar do candidato a vice-prefeito e chegando evidentemente ao governador do estado.

Ricardo Nunes e João Dória estão funcionando como bodes expiatórios para aqueles eleitores mais éticos, mais desejosos de “acabar com a corrupção” ou que carregam no peito um coração que lateja à esquerda. Nesse grupo incluem-se também aqueles que temem que uma vitória de Covas venha a fortalecer as pretensões de Doria para 2022.

São escaramuças e modos de ver a política, reações que não chegam ao fundamental, mas que podem render votos e alterar a posição relativa dos candidatos.

Boulos não pode errar muito, porque é menos conhecido e porque não chegou às periferias da cidade, concentrando-se nos votos dos jovens de classe média. É um apoio importante, que revela a disposição de luta da juventude, sempre propensa à renovação. Mas não é suficiente para ganhar a eleição. Ele precisa ir além.

Sua tese de que o déficit da Previdência pode ser corrigido com a contratação de mais funcionários (que aumentariam as contribuições) foi quase um tiro no pé. A intenção era cortejar as corporações de servidores públicos e passar ao eleitor a ideia de que o mau atendimento nos serviços (as filas, a demora, as exigências burocráticas) se deve à falta de pessoal. Algo sem muita lógica, que ele tentou corrigir quando já era tarde.

Outro complicador é que Boulos é esquerda, mas não é toda a esquerda, nem uma “nova esquerda”. Há partes da esquerda que estão na campanha de Covas e eleitores de candidatos progressistas poderão infletir para a candidatura tucana, caso, por exemplo, daqueles que votaram em Marcio França ou em Tatto.

Para se apresentar como “nova”, essa esquerda precisaria oferecer algo novo em termos de proposição e articulação. Não é o que se tem: a esquerda de Boulos é a mesma esquerda que existe em São Paulo há décadas, fixada no patamar dos 30% dos eleitores, com a desvantagem de que agora amarga a crise do PT e seu mau desempenho nas urnas.

Há muitos tons de esquerda na política. E enquanto esses variados tons não se reunirem em torno de uma ideia ampliada de democracia, formando uma plural, ampla e combativa articulação social-democrática-liberal, qualquer tentativa de falar em “velha” e “nova” esquerda não passará de capricho intelectual.

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