O fogo arde em Brasília, no Congresso e no “barraco” de Serra e Kátia

Marco Aurélio Nogueira

11 de dezembro de 2015 | 15h40

No mesmo momento em que a temperatura política do país atingia picos elevadíssimos, parte das redes parou para discutir o significado profundo do barraco que envolveu a ministra Kátia Abreu e o senador tucano José Serra numa festa na casa do senador Eunício de Oliveira. Os fatos a esta hora são conhecidos: quarta-feira passada, lá pelas tantas, numa rodinha de políticos, o senador Serra insinuou que ela estava bonita e charmosa, o que corresponderia à  sua conhecida “fama de namoradeira”. Levou um copo na cara como reação. O tempo só não fechou graças ao deixa-disso dos demais presentes. Serra se desculpou e consta que ao final do regabofe a vítima e o algoz se cumprimentaram cordialmente.

O estrago, porém, estava feito.

Nos dias seguintes, enquanto alguns deputados se estapeavam no Conselho de Ética, o País parou para discutir as cenas da festa brasiliense. Posto na parede e acusado pela ministra de  ter sido “infeliz, desrespeitoso, arrogante e machista”, Serra tentou se defender dizendo ter feito uma “brincadeira com intenção de elogio” e que “sempre tive respeito pela Kátia”. A ministra não se contentou e voltou à carga, escrevendo no Twitter: “Fiz o que qualquer mulher honrada faria. Reagi à altura de uma mulher que preza a sua honra”.  Lembrou ainda quesão “recorrentes” as reclamações de vários colegas sobre “piadas ofensivas” de Serra. Para finalizar, disse estar arrependida de ter votado em Serra em 2010.

Fecham-se as cortinas do espetáculo. Como pouquíssimas pessoas estavam na festa para saber de fato o que aconteceu, todos passaram a se manifestar com base no achismo e em posicionamentos de valor, opinando a partir de suas fantasias, de seus preconceitos e da maior ou menor simpatia pelos envolvidos. Objetividade zero.

Feministas mais ou menos radicais, antitucanos, petistas, jornalistas da Globo News e analistas políticos foram unânimes em criticar e condenar Serra duramente. A tese dominante afirmou que chamar alguém de namoradeira(o) é grosseria e ofensa. Machismo puro, quando um homem chama uma mulher de namoradeira. Alguns admitiram que, em um ambiente íntimo, no leito do amor ou na casa de amigos do peito, a brincadeira até tem graça e pode ser aceita. Mas jamais num ambiente público e diante de uma adversária política. Aí, neste caso, usar a palavra é machismo extremo, pois o cara contaria com o silêncio da mulher e a desabonaria perante o grupo. Os mais serenos sugeririam que tudo não passou de uma brincadeira mal calibrada, motivo suficiente para que Serra fizesse uma sincera autocrítica. Ele não teria o direito de falar aquilo para uma pessoa recém-casada. Como se ser casada fosse automaticamente sinal de honradez.

Os mais irritados concluíram que se o homem namoradeiro pode ser tido como galanteador, gentleman, sedutor, nada disso se associaria à mulher namoradeira, que significaria tão somente “prostituta”, uma “vadia”. E palmas para a reação “indignada” de Kátia Abreu, que não é uma “amiguinha do Serra” e teria sido violentamente ofendida pelo “engraçadinho”, machista de carteirinha.

Sempre me interessei pelo léxico que rege as interações entre homens e mulheres, especialmente quando envolvem afeto, paquera, flerte, sensualidade. Para mim, o verbo “namorar” faz par com seduzir, jogar charme, cortejar. Não significa ir para cama, menos ainda “se entregar para qualquer um”. É diferente de “ser galinha”, como se fala em São Paulo, por exemplo. É tentar ser importante para outros, quem sabe até despertar paixões e desejos. Em suma, entrar em contato, envolver e se deixar envolver, ativar o jogo da sedução. Nada mais humano: demasiadamente humano.

Na vida tradicional, as mulheres estavam proibidas de namorar: não eram livres para expressar seus interesses afetivos e muito menos seus desejos sexuais. Eram fortemente reprimidas. Os homens podiam tudo e cabia a eles a iniciativa amorosa, ainda que pudessem ser atraídos pelos olhares lânguidos e insinuantes das moças mais “atiradas”. Veio de lá — da tradição machista — a ideia de que as mulheres são sempre recatadas e os homens sempre impetuosos, as mulheres são vítimas e “caça” e os homens são algozes e caçadores. Mas mesmo naquela época, “namorar” era algo mais para o inocente, era aquilo que se fazia na poltrona namoradeira que toda casa de família tinha no meio da sala, bem à vista dos pais.

Isso foi posto em xeque pela geração 1960 e pela cultura do “amor livre”, que abriu a sociedade para o século XXI. A reivindicação feminista passou a ser a da igualdade com os homens também neste terreno: se te desejo devo poder te abordar e farei isso tantas vezes quanto meu desejo mandar. Toda uma nova sociabilidade se estruturou a partir daí e o mundo se povoou de mulheres caçadoras, com feromônios soltos, “vestidas para matar” e confiantemente sedutoras. Casamentos abertos e relações coloridas se multiplicaram, como sabem todos os que puderem viver aqueles anos de saudável loucura.

Por caminhos tortuosos que não consigo decifrar, o parafuso deu outra volta no começo do século XXI. E as mulheres da geração livre cederam o lugar para uma nova geração, que passou a privilegiar temas antigos, devidamente ressignificados: seria preciso ser seletivo na conquista, a fidelidade seria um valor supremo, o “namoro” seria uma relação estável, não uma festa colorida, a “honradez” seria um valor, no ambiente profissional deveria estar proibida qualquer abordagem sensual — tudo “politicamente correto”, mas, ao mesmo tempo e de modo paradoxal, tudo misturado com o elogio da “pegação” e do “ficar”, sobretudo na fatia mais jovem desta nova geração de mulheres.

Não sei e nem me interessa saber se Serra é namoradeiro no sentido que Kátia usa a palavra: infiel. Não tenho como saber isso, nem muito menos como saber algo a respeito do comportamento da ministra. Nada disso é importante ou interessante. Também pouco me importa se o senador tucano é ou não um cara desastrado e deselegante, se estava de porre ou se a ministra é que bebeu demais. Mas o episódio não é secundário ou irrelevante, e permite que se concluam algumas coisas.

 (1) A mais óbvia é que o tempo fechou em Brasília e recomenda que ninguém mais tente paquerar ou fazer graça com o próximo. Sinal claro do grau de degradação política a que se chegou na capital. Convivência forçada e sufocante, clima de guerra e hostilidades abertas o tempo todo, com as respectivas doses de desconfiança. Melhor andar com cuidado e beber menos nas festas.

(2) Serra pisou na bola, pois foi brincar com a pessoa errada num ambiente errado e o fez de modo equivocado. Careceu de cálculo estratégico. Não é certamente uma atitude adequada participar de uma roda de conversa majoritariamente masculina e afirmar a uma mulher recém-casada presente que “dizem por aí que ela tem fama de namoradeira”, ou algo parecido.

(3) Katia usou o fato para mostrar ao mundo que quer distância de Serra, que é uma mulher firme e dilmista até a raiz dos cabelos. Soube manejar bem o episódio, com o qual somente ela ganhou alguma coisa, ao menos até agora. 

(4) Muita gente não gosta de Serra e viu no gesto dele uma “prova irrefutável” de que merece ser atacado por terra, mar e ar. Neste caso, o senador funcionou como sparring dos que querem bater nos tucanos, no PSDB e no impeachment.

(5) O termo “namoradeira(o)” é múltiplo, polifônico e polissêmico, e em seus usos há um claro corte regional. Em Minas, por exemplo, chamar uma mulher de namoradeira é ofensa mortal. Em São Paulo, não é. Se se levar minimamente a sério Sex and the city, em Nova York também não. Leila Diniz era carioca e nunca escondeu que era namoradeira.

(6) Os que privilegiam a dimensão gênero acham que os homens, machistas que são por definição, se orgulham de ser namoradeiros e as mulheres, oprimidas desde sempre, pensam que namoradeira é uma acusação grave, que atenta contra a honra e o decoro. É uma visão superficial e bastante preconceituosa, até por ser genérica.

(7) Mulheres mais velhas, experientes, maduras e tranquilas (geração amor livre) parecem ser mais generosas com os usos consagrados da palavra do que mulheres mais jovens, que esgrimem as questões de gênero com mais habilidade, destemor e empolgação.

(8) Mulheres que defendem a plena igualdade entre homens e mulheres, têm maior disposição para achar que as palavras devem ter pesos iguais quando flexionadas segundo o gênero e pensam que mulheres namoradeiras são tão dignas, honradas e legítimas quanto homens namoradeiros. Ou não. Como homens e mulheres devem ser iguais, e devem ser tratados como iguais, os dois podem ser igualmente “vadios” ou “sedutores”.

(9) Seria oportuno que se aproveitasse o episódio para refletir sobre o destempero verbal, por um lado, e sobre as reações exageradas e histriônicas a questões polêmicas, mal esclarecidas e sujeitas a muitas chuvas e trovoadas, ao estilo “Pátria o muerte”. Palavras são armas poderosas e não se deveria brincar com elas. Ninguém a rigor ganha com o emprego de termos chulos ou controvertidos, assim como todos perdem quando a reação a este emprego ultrapassa a dimensão do razoável e é artificialmente politizada. Se ninguém mais puder gozar o outro, o mundo está perdido. Mas, numa época de alta reflexividade como a nossa, a gozação precisa ser bem feita.

(10) Por fim: encontros e reuniões de políticos passaram a contar com quilos de nitroglicerina pura. Cada um que delas participa vai devidamente paramentado e com os bolsos cheios de pedra, just in case. Sinal destes tempos de crise e decomposição (ética e moral) de uma classe governante, das oligarquias políticas, dos partidos, das maneiras políticas, do sistema todo. Continuam a ser situações dedicadas ao entendimento e à negociação, mas estão cada vez mais atravessadas pelo risco de produzirem precisamente o contrário do que pretendem.

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