O dia em que Dilma foi ao programa do Jô

Marco Aurélio Nogueira

13 de junho de 2015 | 14h26

Instigado pelos vários comentários publicados nas redes sociais, assisti à longa entrevista de Dilma Rousseff ao Programa Jô Soares de ontem, dia 12 de junho.

Não penso que presidentes, jornalistas, analistas políticos e artistas sejam estranhos entre si, não façam coisas em conjunto, não troquem favores ou não se deem as mãos. Ocorre o mesmo com governos e grandes redes de televisão, que costumam se apoiar mutuamente. Nunca se deve esquecer que rádios e televisões são concessões públicas e as verbas oficiais de propaganda pesam muito em suas receitas. Nem se pode ignorar que presidentes, governadores, prefeitos, parlamentares e dirigentes políticos necessitam desesperadamente de “exposição midiática” e adoram aparecer nos telejornais ou em entrevistas. Quando podem ser estrelas principais de um programa televisivo, como ocorreu ontem com Dilma, o fato é comemorado como conquista política, algo destinado a alterar expressivamente o humor público e a correlação de forças políticas. Nem sempre isso acontece, mas a sensação do entrevistado é de que marcou posição.

A Globo e o governo Dilma não fogem à regra. Só cabeças muito maniqueístas demonizam a Globo ou demonizam o governo petista: eles estão muito mais próximos do que a vã filosofia imagina. Somente pessoas simplórias podem achar que Jô Soares é um impávido desbravador da opinião pública, um indignado contra as injustiças do mundo, alguém que não se dobra ao fascínio do poder ou às ordens de seus superiores. Ou pensar que Dilma seja refratária aos salamaleques da Globo, em obediência a sabe-se lá que decisão de combater sem trégua à “mídia golpista”. Tanto ele, o entrevistador, quanto ela, a entrevistada, têm total direito de fazer o que fizeram. Não contrariam nenhum código de conduta. Por que contestar um apresentador de talk-show por tomar partido ou pegar mais leve numa entrevista concebida para ser “digestiva” e agradável? Por que criticar a presidente por querer vender seu governo?

Em suma, não há porque condenar a entrevista de Dilma, encomendada pelo marketing palaciano e obedientemente organizada por Jô, ou por livre e espontânea vontade, ou por ordem do jornalismo global. Ela tem até mesmo um efeito colateral não desprezível: ajuda a que se percam ilusões sobre a relação entre governo petista e grande mídia.

Isso posto, sobra a entrevista em si. E aí entra o discernimento crítico. A técnica empregada nela foi do tipo “eu levanto e você chuta”, que bloqueia a naturalidade e trava a sinceridade do entrevistado e do entrevistador. Tudo muito recitado, previamente combinado, provavelmente editado, ajustado, etc. Seria mais legal se o lance fosse tipo pinga-fogo. Talvez por isso, a entrevista é entediante, pouco esclarecedora, não traz nenhum fato novo, é tão-somente uma cansativa propaganda dos atos governamentais, alongada e glamourizada com umas pitadas de Dilma coração valente.

A entrevista é horrorosa e muito provavelmente produzirá efeito contrário ao desejado. Nela, ressaltam alguns defeitos imperdoáveis: falha de comunicação governamental, ausência de projeto político, fraqueza da protagonista principal, falta de um eixo expositivo. Alguns momentos foram simplesmente patéticos, tristes de se ver. Pô, era a Presidente da República! Ninguém pode ficar feliz com sua performance bisonha, repleta de tatibitates, platitudes e tropeços. Ela achou bacana lembrar que na cadeia lia bulas de remédio para dar vazão à necessidade de leitura e Jô nem sequer se envergonhou em dizer que “lambeu uma pedra do pré-sal e ela tinha gosto de sal”.

A pergunta que fica é como algo assim pode acontecer. Será que ninguém do PT viu isso ou procurou contribuir para modelar politicamente a entrevista? Será que o Jô não se deu conta do quão pouco à vontade ele estava, a ponto de sujar seu filme? Será que Dilma não viu que estava entrando numa roubada?

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