O desafio de Huck à esquerda

Apresentador incomoda porque manifesta posições avançadas, faz propostas e busca viabilizar uma ideia de articulação democrática que explora caminhos não usuais

Marco Aurélio Nogueira

17 de janeiro de 2020 | 14h19

Lula pontificou: “Luciano Huck não representa a centro-esquerda. Representa a Central Globo de Televisão”.

Reverbera o que vários petistas e parte da esquerda falam. Ao mesmo tempo, dá o tom para que se continue com a campanha de desconstrução de Huck.

É do jogo. Lula faz o que dele muitos esperam. Quer limpar a área, não ser desafiado, fazer com que as coisas girem em torno dele. Sua frase sobre Huck pode até mesmo ser um chega-prá-lá no governador Flavio Dino (MA), que andou conversando com o apresentador dias atrás.

Chama mais atenção a conduta dos que seguem cegamente a catilinária lulista. Destruir Huck tornou-se a diversão preferida de tantos que se proclamam democratas. É um veto bem pouco democrático, que parte de supostos falsos, hipócritas, politicamente atrapalhados.

A associação Huck-Globo é uma bobagem oportunista, que intenciona carimbar o apresentador como direitista, um empresário servil aos interesses da “mídia conservadora” e do grande capital. Trabalhar numa empresa significaria, para essa turma, incorporar automaticamente a cultura, o modo de ser, o pensamento e os projetos do empregador.

Acrescente-se a isso a ideia de que Huck não tem experiência, como se antes dele, em 1994, 1998 e 2002, Lula a tivesse, por exemplo. Se o cara é jovem e não integra um partido tido como de esquerda ou centro-esquerda, não presta. Ora…

Fala-se ainda que Huck nada tem a propor, que é um ventríloquo, um pau-mandado, fato ostensivamente desmentido por suas recorrentes intervenções públicas.

Age-se segundo a máxima “não importa o que é dito, mas sim quem o diz”, postura no mínimo burra e preconceituosa. Bem típica de quem se recusa a olhar o todo e a analisar textos e contextos, pessoas que se sentem assim desobrigadas de avaliar o que criticam, tipo não li e não gostei.

Ninguém sabe se Luciano Huck será candidato a algum cargo. O que se sabe é que ele está se posicionando, e não de hoje. Tem manifestado posições avançadas e bem concatenadas. Ousa fazer propostas e tenta por de pé uma ideia de articulação democrática que explora caminhos não usuais. Talvez seja precisamente isso que incomoda os guardiões da pureza de esquerda.

Em vez de se ficar tachando seus movimentos e suas iniciativas como se fossem a expressão de um bolsonarismo light, “neoliberal”, todos ganhariam muito mais se passassem a decifrar o que ele fala e propõe, o circuito que percorre, os compromissos que está assumindo, os apoios que agrega.

Huck tem potência midiática e juventude. Pode ajudar a injetar sangue novo na política nacional, a bloquear a ascensão da extrema-direita e a desafiar uma esquerda que insiste em repisar terreno esburacado e não traz qualquer ideia de futuro nas mãos. Por que não levá-lo a sério? Deixá-lo circular em paz e ver o que tem a propor?

O veto, o preconceito, o medo e a discriminação são as piores armas com que se pode entrar numa batalha política.

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