O complicado jogo de Gilberto Kassab

Marco Aurélio Nogueira

19 de abril de 2022 | 11h35

Como nada está tão ruim que não possa piorar, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, tem declarado que seu partido não deixará de apresentar candidato próprio às próximos eleições presidenciais. Para ele, “não faz sentido um partido existir para apoiar um candidato de outra sigla no primeiro turno em um país que tem dois turnos”. Ele quer mostrar que o PSD tem “ideias próprias”.

Kassab tem um histórico de flutuações. Está em todos os lados e em nenhum. Na maior parte do tempo, atua parado, com incursões de bastidores. Já fez acenos para Lula, e ninguém se surpreenderia se de repente fosse para o outro lado, ou simplesmente não fizesse nada. Faz jogo próprio, cavalgando um partido que tem sua cara e sua filosofia. É dono do PSD. Mas sua trajetória não é a de um vitorioso. Na presente corrida eleitoral, por exemplo, ele já tentou, sem sucesso, coroar Rodrigo Pacheco, Eduardo Leite e Paulo Hartung como candidatos. Seu objetivo principal é influenciar, mais do que governar ou exercer poder diretamente. Por isso, prefere silenciar no primeiro turno ou jogar parado, para descarregar seus apoios no segundo, conseguindo assim algum espaço no governo futuro.

Foi assim quando se tornou Ministro das Cidades no governo Dilma Rousseff e, pouco depois, Ministro da Ciência e Tecnologia no governo Temer. Como deputado federal acumulou dois mandatos e foi também prefeito de São Paulo em duas ocasiões. Tem uma extensa ficha política. E algumas pedras no caminho: acusações de enriquecimento ilícito, improbidade administrativa e financiamento ilegal.

Tirando as pedras, não há porque contestar seu estilo. Pode não ser bonito de se ver, mas não é sem sentido.

O problema é que, em 2022, a dramaticidade política lateja sem piedade. Nas eleições será decidido o que acontecerá com o País nos próximos anos, talvez até mesmo nas próximas décadas. O semáforo não está com a luz verde acesa. Oscila entre o amarelo e o vermelho, se considerarmos a sobrevivência da democracia. A extrema-direita parou de perder força, Lula parou de subir, o centro democrático ainda não processou todas as suas dúvidas existenciais e marca passo, ainda que tenha boas cartas na mão (caso de Simone Tebet). Além disso, o País rola ladeira abaixo. Nada funciona, os estragos se acumulam e deixam um legado maldito para o futuro. Quem assumir o governo em 2023 precisará de muita energia cívica, muita coesão democrática e muita habilidade. Coisas que precisariam começar a ser plantadas agora.

Num momento como esse, o jogo de Kassab é pernicioso. Rouba votos de quem mais precisa deles. Embaralha a disputa, tentando exibir uma potência que não existe, ou só existe da boca para fora. Abusa do blefe com segundas intenções.

Quando mais se necessita de lideranças que entendam a gravidade da situação e trabalhem para aparar arestas e unificar os democratas, jogadores como Kassab são como aqueles atacantes que só sabem perder gols mas se recusam a ir para a reserva.

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