O “centro novo” de São Paulo: uma cidade que o tempo e o descuido destruíram

Marco Aurélio Nogueira

20 de março de 2015 | 17h56

Fazia alguns anos que eu não ia ao “centro novo” de São Paulo, aquele quadrilátero formado pelas ruas entre a Xavier de Toledo, a Av. Ipiranga, a Av. São João e a São Luiz. Aprendi a conhecê-lo como centro novo para diferenciá-lo do “centro velho” que ficava do outro lado do Viaduto do Chá, lá para a Praça do Patriarca e a Praça da Sé.

Nos anos 1960 e 1970, era por lá que a cidade pulsava, era lá que estavam muitos serviços e muitas lojas, onde a vida intelectual fluía, se fazia cultura e se passeava. As livrarias estavam presentes, da antiga Brasiliense na Barão à nova Ciências Humanas na Sete de Abril, de Raul Mateos Castell, meu colega de faculdade. A velha Livraria Francesa também, assim como a nova Livraria Italiana na Avenida São Luiz, além de alguns sebos. Recordo fácil as manhãs de sábado em que peregrinávamos por elas; praticamente passávamos os dias no centro, bebendo e conversando. Caio Graco Prado, dono da Brasiliense, teve a grande ideia de realizar debates com autores no calçadão em frente à livraria. Juntava uma galera boa, era muito divertido e, sobretudo, educativo. Estávamos em plena ditadura, era difícil encontrar espaços como aquele. O mesmo faria Raul Mateos na sua livraria, que reunia, não só aos sábados, muitas pessoas interessadas em livros e em discussões políticas ou filosóficas. Eu e meu saudoso amigo Gildo Marçal Brandão batíamos ponto lá, regularmente, entre 1974 e 1979.

Havia o Mappin, que organizava a região em termos de compras, primeira grande loja de departamentos, que nos anos 1970 ainda reluzia. A Mesbla vinha logo depois. O quadrilátero era cheio de lojas, bares, cafés. O Paribar brilhava, depois fechou, foi reaberto em 2010 e hoje é um dos poucos remanescentes daqueles anos. O Estadão funcionava na esquina da Martins Fontes com a São Luiz. O Museu do Disco, a Breno Rossi e a Casa Manon ficavam na 24 de Maio. Não faltavam cinemas, embora eles já estivessem começando a migrar para os Jardins e os shoppings, que engatinhavam porém. A Galeria do Rock ainda não se formara, mas seus embriões estavam crescidos. E havia o Teatro Municipal, que nem era tão restaurado quanto hoje, mas que impressionava e emprestava ar solene a uma área que insistia em permanecer viva.

São flashes, que espoucam aleatoriamente, ativados pela memória de momento. Não dão conta da riqueza, das características (e dos problemas, claro) que havia ali.

Pois bem, não sobrou nada disso. Hoje a região parece um cenário de filme de assombração. É um vasto calçadão, mas quase não dá para circular nele, tantas são as barracas vendendo quinquilharias. A sujeira é generalizada. As fachadas não estão cuidadas, algumas estão se decompondo, como máscaras rotas cobrindo prédios abandonados. Você caminha desviando de buracos e camelôs e não vê a hora de escapar. Se conheceu a região nos anos 1970, fica até com vontade de chorar, tamanho o desalento: onde terá ido parar a cidade que ali pulsava? por que deixamos que isso acontecesse, por que ninguém fez nada para evitar este espetáculo de degradação urbana?

Não me parece sensato achar que, no curto prazo, o quadrilátero seja recuperado. Também não acontecerá isso com o centro velho. São áreas que não rendem votos, para as quais ninguém olha, com as quais ninguém se preocupa para valer. Parece que foram empurradas para o depósito de coisas inúteis, nem conseguem funcionar como museus de uma era: não há mais traços do passado ali, nada é objeto de atenção ou cuidado especial, ninguém se deixa atrair, nem sequer o grande capital. Milhões de jovens não imaginam que estes centros existam, jamais pisaram neles, talvez nunca venham a pisar. A impressão é que se dá como favas contadas que a região perdeu valor e sentido, saiu de foco. Tomara que eu esteja errado.

Centros urbanos são vitais para as cidades. São Paulo perdeu os seus. Hoje a cidade gira em torno de múltiplos subcentros que a organizam, mas que não estão revestidos de força simbólica e, portanto, não funcionam como matrizes de vida coletiva intensa. Servem para que as pessoas morem e as tribos se formem, mas não muito mais do que isso.

Tudo isso pode ser resultado da voracidade “pós-moderna”, da vida líquida patrocinada pelo capitalismo globalizado que desiguala e desvaloriza ao mesmo tempo que massifica e faz tudo parecer igual. Mas também pode ser simplesmente o fruto de décadas seguidas sem políticas urbanas dignas do nome.

Com a palavra, os arquitetos, os urbanistas, os vereadores, os cidadãos…

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