O anticomunismo suicida

O anticomunismo suicida

Discurso de Bolsonaro é assustador. Sua contundência brutal é esgrimida como uma adaga mortífera. A escancarada postura antidemocrática e intolerante pode tornar o País ingovernável.

Marco Aurélio Nogueira

22 de outubro de 2018 | 10h29

O discurso que Jair Bolsonaro fez transmitir para seus apoiadores ontem, domingo 21 de outubro, na Av. Paulista, é uma peça retórica que diz muito sobre o estado a que chegou a política nesse ano de 2018.

Mostrou com clareza um estilo de atuação e uma narrativa de mobilização que vêm à tona alavancando e “racionalizando” os perigos que teremos de enfrentar no próximo ciclo governamental, especialmente se o capitão for eleito no dia 28.

Articulado em uma estrutura memética, com “memes” e frases curtas carregadas de ódio e efeito simbólico, o discurso foi um exemplo de agitação. Feito para insuflar uma massa já mobilizada, também buscou acuar indecisos e adversários. Suas sentenças sanguíneas, extremadas e caricatas, cumpriram a função de levar multidões à histeria paroxística.

Nada mais eficiente. Nada mais deplorável. Nada mais preocupante.

“Varrer a petralhada do mapa” e garantir que o Brasil “jamais será comunista” foram frases marteladas durante os dez minutos em que durou a pregação.

É um discurso assustador, desconhecido no Brasil. Antes de tudo, pela contundência não lapidada, brutal, esgrimida como uma adaga mortífera. Mas também pela escancarada postura antidemocrática, intolerante, autoritária, que, levada a massas excitadas e ressentidas, pode incendiar e tornar ingovernável o País.

Um Presidente que planeje governar com tal compromisso “patriótico” age como coveiro de si próprio. Ao impulsionar o irracionalismo das multidões, cava sua própria cova.

Isso porque não se mostrará preparado para governar em situações de alta complexidade. Cego pela arrogância e por uma estratégia parcial (com destruição, mas sem construção), Bolsonaro despreza o mundo em que vive, acreditando que poderá controlá-lo com o “instinto animal”, sem a mínima consideração pela pluralidade social, política, moral e cultural típica de uma sociedade moderna como a brasileira.

Ao ameaçar de extermínio os “comunistas da petralhada”, ao estigmatizá-los como antipatrióticos e “vagabundos”, ao prometer deixar “Lula apodrecer na prisão”, o candidato não exibe somente uma perigosa face autoritária, que pela lógica pode implicar a eliminação física dos adversários. Mostra também enorme dificuldade de compreender a sociedade que pretende governar, na qual praticamente não existem comunistas, os “petralhas” não ameaçam a rigor nada nem ninguém, não são uma força inimiga alienígena a ser destruída e nem contam com o apoio da maioria da população. Carece de generosidade mínima, de respeito mínimo por direitos e prerrogativas civis. Gera medo, não confiança. A lealdade que obtém é pouco sustentável.

Ao qualificar o conjunto de militantes e ativistas que não o aplaudem e não o apoiam como “petralhada”, Bolsonaro põe no mesmo saco o conjunto dos democratas de esquerda, dos liberais democráticos, dos social-democratas e dos libertários, um vasto campo que não se acomoda em rótulos simplificadores. Isola-se na sua bolha gigantesca, confiando que ela será eterna.

O anticomunismo, travestido ou não da ideia de “combater a esquerda vermelha”, é um fermento que leva a guerras civis e à dilaceração social. Separa e discrimina sem critério. Serve para mobilizar mentes e corações e vencer eleições. Mas é imprestável para que se governe ou se promova uma reconciliação que a cada dia, no Brasil, se faz sempre mais necessária.

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