Normalidade perversa

Marco Aurélio Nogueira

09 Julho 2018 | 18h06

Dá para entender. Se você acha que te deram um golpe, nada mais natural do que você mesmo virar um golpista. Golpes passam a te ser naturais, pouco importando as consequências que terão para os demais. É como uma praga, uma maldição, que te gruda no corpo e te assombra, te cega e alucina, passando a integrar o teu próprio modo de ser.

Dá para entender, mas não para aceitar. Porque você pode se beneficiar no primeiro momento, afinal conseguiu criar um fato e ficar nas manchetes das redes durante um domingo inteiro, rodando de meme em meme, comemoração em comemoração, para então terminar em fúria e acusações. Para quem só pensa em voltar ao poder, uma embrulhada jurídica soa como música, espalha névoa e indefinição sobre tudo. Reforça tua obsessão golpista, seja a que você diz te vitimar, seja a que você mesmo pratica. Quanta mais confusão conseguir criar, melhor.

No segundo momento, porém, você vê que sua escolha não produziu os resultados esperados e jogou um pouco mais de cal no terreno que você mesmo pisa, ajudando quem você diz ser teu maior adversário. Afinal, agir para desmoralizar as instituições não é o que faz a esquerda ser vencedora. Ao contrário, é um serviço que costuma ser prestado pela extrema-direita, pelos populistas irresponsáveis e pelos demagogos. Só eles ganham com isso. A zorra institucional não é a praia dos democratas.

Aí a vida volta ao “normal”, a uma normalidade tosca, perversa e deturpada, na qual cada um (você também) tem seu poderoso de plantão e se sobressai a falta de coesão, de critério, de igualdade e justiça, de bom-senso e largueza de visão. Você então pode começar a perceber que sua ação destrambelhada, minuciosamente planejada na calada da noite, contribuiu para impulsionar essa mesma normalização, que você jura combater e denunciar.