Nojo, horror, incivilidade

Nojo, horror, incivilidade

Ao debochar da tortura, Bolsonaro mostra falta de grandeza e compostura. Enquanto isso, megafestas tomam conta do País.

Marco Aurélio Nogueira

30 de dezembro de 2020 | 11h10

Foto Peia S. Dias

Jair Bolsonaro perdeu uma oportunidade de ouro para ficar de boca fechada. Na segunda-feira 28/12, ao debochar da tortura sofrida pela ex-presidente Dilma Rousseff durante os anos da ditadura, ele não só agrediu uma mulher digna e combativa, como também fez papel de paspalho, insensível aos horrores do mundo.

O presidente mostrou ser pessoa perigosa, perversa, cruel, vazia de grandeza. Sem compostura, hostil aos ritos do cargo que ocupa, sem honradez e decência.

Pode ter desejado erguer mais uma cortina de fumaça para ocultar sua incompetência como governante, sua insensibilidade a cada dia mais ostensiva, sua incapacidade de dar atenção a qualquer coisa que diga respeito à humanidade de seus semelhantes e ultrapasse a defesa encarniçada de seus filhos enlameados na corrupção. A ideia deve ter sido desviar o foco daquilo que realmente importa, a vacinação, para a qual o governo não toma nenhuma providência. Nem seringas consegue comprar.

Pode ter desejado fazer isso, como se fosse o malandro-agulha de prontidão. Mas nada justifica suas palavras carregadas de ódio e desprezo, que ferem a decência de qualquer brasileiro em cujo peito pulse um coração.

Cometeu um crime contra o Estado democrático, contra a Constituição, a ética, a moral comum. Impossível fazer vistas grossas para tamanha prova de desfaçatez. Até quando ele seguirá desfilando pelo País esse estilo grosseiro que só faz excitar seus seguidores fanáticos e atiçar o lado mais sombrio da alma brasileira?

Nojo, asco e ojeriza definem bem o sentimento que muitos brasileiros sentiram ao presenciar aquela performance.

Incivilidade e indiferença

Enquanto isso, multiplicam-se pelo País as festas de massa. A desculpa é o réveillon, como antes foi o Natal, os feriados em ponte, a chegada do verão. Tenta-se justificar as aglomerações com a alegação de que as pessoas estão “cansadas da quarentena”. É incompreensível, injustificável, assustador.

Neymar organiza em Mangaratiba uma megafesta de 5 dias para algo em torno de 150-200 convidados. Consta que comprou um antigo haras para abrigar a multidão. Cego para as agruras do mundo, de costas para as pessoas, atrai “influencers”, artistas, youtubers,  os “parças”, a galera amiga de sempre. Um Narciso engolfado em sua egolatria, que ignora os problemas da sociedade.

Ainda no estrato de cima, milionários voam em seus jatinhos para fazer o mesmo em recantos paradisíacos do litoral.

Há bares, boates, galpões que reúnem centenas de pessoas nas grandes e médias cidades. Dançam, bebem, beijam, se abraçam, como se não houvesse amanhã. Há tentativas de interdição, a justiça e a polícia são chamadas, mas nada parece frear as festas macabras, designação empregada pelo o jornal londrino The Guardian para se referir às aglomerações festivas em plena pandemia. Nas periferias, a farra também corre solta, no ritmo do fluxo cotidiano.

A negação do vírus entroniza a ignorância, é um reflexo dela.

É duro admitir, mas muitos brasileiros entregaram os pontos. Não conseguem visualizar os efeitos em cadeia daquilo que fazem em público. Pouco se importam com o risco a que se submetem e a que submeterão os que os cercam. Não há neles qualquer senso de responsabilidade coletiva. Sentem-se acima dos mortais. Agem como aquele bárbaro que de repente aparece em plena civilização: apropria-se parcialmente do que há de progresso técnico e desenvolvimento sem compreender o mundo em que vive, com seus perigos e exigências.

É estarrecedor.

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