No futebol globalizado, reconstruir é preciso

Enquanto os europeus se aperfeiçoaram em termos futebolísticos, no Brasil o futebol estagnou

Marco Aurélio Nogueira

07 Julho 2018 | 16h56

Eliminada a seleção, natural que explodisse no país um oceano de lamentos e explicações. Todos por aqui são especialistas no assunto, como se sabe. As redes sociais, em particular, vocalizaram uma algaravia de manifestações, numa mistura de sofrimento, decepção e constatações apressadas: o povo pobre perdeu uma de suas poucas alegrias, a tristeza se abateu sobre a sociedade, a crise voltou ao Brasil, as falhas foram do conservadorismo do Tite e dos jogadores que estavam fora de forma ou “estourados”, além da pipocagem de alguns tidos como fora-de-série, o jogo foi marcado pela aleatoriedade e pelo acidente, a culpa, no fundo, seria da corrupta CBF e da cartolagem incompetente.

No dia seguinte da “desgraça”, porém, não se viu vivalma se derramando em lágrimas pelas ruas, nem nas casas a tristeza marcou presença. E não foi por excesso de “normalização” ou por falta de paixão, mas sim por uma surpreendente e espontânea compreensão crítica das coisas.

O brasileiro médio, os jornalistas esportivos, os amantes do futebol saíram a campo para tentar explicar o que, em termos esportivos, parecia óbvio: no esporte bretão, também vencem os melhores, e a equipe brasileira não foi melhor contra a Bélgica, como provavelmente não seria melhor que a França, a Croácia ou a Inglaterra. Poderia ter vencido, claro, pois no futebol nem sempre os melhores saem vencedores. O imponderável está inscrito na própria bola. Mas nem sempre ele se manifesta.

A Copa 2018 está sendo a expressão de uma hegemonia: de uma direção intelectual e moral no futebol. Uma hegemonia que se afirma a partir da Europa, onde estão os grandes clubes, as equipes mais poderosas, mais ricas e mais bem estruturadas, os jogadores que fazem a diferença. É uma Europa que, depois de ter visto a Inglaterra inventar o futebol moderno no final do século XIX, está sabendo reinventá-lo em sintonia com os avanços da vida moderna e da globalização. As grandes potências – Alemanha, Inglaterra, França, Rússia – seguidas pelas potências “secundárias”, a Espanha, a Suécia, a Bélgica, a Croácia, algumas das quais nem potência são, não somente jogaram rios de dinheiro na revitalização do esporte como também adotaram políticas esportivas e futebolísticas que, com o tempo, plasmaram um novo jeito de jogar bola. Criaram “filosofias” nacionais que se disseminaram pelos países, chegando às escolas, aos jovens, aos clubes, aos centros de treinamento, impulsionadas por tecnologia, ciência esportiva, aparato fisiológico de vanguarda, mentalidade vencedora. Em diversos países, a paixão pelo futebol se encarregou do resto.

Beneficiaram-se também – ponto importantíssimo – da importação de talentos de outros continentes (América do Sul e África, sobretudo), que ajudaram a suavizar a dureza tática e disciplinar do futebol europeu com doses generosas de ginga, habilidade, improvisação e malícia, coisas que haviam feito a fama, por exemplo, do futebol brasileiro. Souberam se abrir para outras culturas, outras etnias, incorporaram os imigrantes, numa rica miscigenação esportiva. Na seleção francesa, por exemplo, a maior parte dos jogadores tem origens africanas.

O resultado foi o surgimento de uma safra formidável de jogadores e de equipes excepcionais, que passaram a aliar força física com disciplina tática, técnica rigorosa e habilidade. Tudo isso passou as seleções nacionais, para a Eurocopa e aos poucos para as sucessivas Copas do Mundo. Os 7 x 1 de 2014 não foram obra do acaso, mas o resultado de um longo e bem pensado trabalho.

O resumo é que enquanto os europeus se aperfeiçoaram em termos futebolísticos, no Brasil, na América do Sul e na África o futebol estagnou. O mundo árabe e a China estão esquentando os motores e vão complicar ainda mais o quadro. Continuou havendo, por aqui, entusiasmo, empolgação e interesse, mesmo depois do desastre de 2014. Os clubes de massa continuaram fortes e levam milhares aos estádios, mas o Campeonato Brasileiro não saiu do lugar. Alguns jogos chegam a ser patéticos.

Tudo conspirou contra: a CBF e sua gestão torta, a falta de investimento, o saque europeu que nos rouba talentos ainda jovens, os clubes dirigidos de forma amadorística, a mentalidade “boleira” do jogador, ainda convencido de que um bom estoque de dribles e malabarismos, apimentados com malandragem e malícia, seria suficiente para vencer e convencer. Continuou impávida a convicção de que uma ginga genial quebra a coluna vertebral dos adversários. Permaneceu a arrogância, mesmo que o ambiente do futebol mostrasse (pela TV, sobretudo) que os brasileiros não podem mais se considerar imbatíveis, ainda que continuem a jogar bem. Podem formar boas equipes, mas nada além disso.

O que se viu na Rússia com a seleção e o que se continua a ver com os jogos restantes é uma competição equilibrada, na qual os participantes não se distinguem em “craques” e “grossos” e todos têm trunfos a exibir. Os canarinhos mostraram os seus, mas em dose muito baixa. Poucos jogadores se destacaram, as grandes estrelas decepcionaram, em comparação com as equipes mais fortes os brasileiros ficaram um degrau abaixo nos fundamentos e nos atributos físicos, técnicos, táticos, disciplinares. A seleção poderia ter ido além, estava bem armada, mas não era imune a suas próprias falhas nem aos méritos dos adversários. Não jogou mal contra a Bélgica, mas perdeu.

Tite fez até agora um excelente trabalho, de reconstrução e recuperação da autoestima, mas precisa de tempo para inventar uma nova maneira de jogar e semeá-la entre os jogadores.

Não conseguirá muito se o entorno não ajudar. Se não houver uma política para o futebol, se não houver adesão dos clubes. Sem um bom “ambiente de negócios” nenhum empreendimento frutifica. Assim na economia, na política e no futebol. Em tempos de globalização acelerada do esporte, é preciso reconstruir, quem sabe começar do zero. Reorganizar os calendários e os campeonatos, blindar os jovens talentos, desmanchar as máfias poderosas que chantageiam e mandam em tudo, elevar o padrão de jogo, de gestão, de jogador, de técnico. A própria crítica esportiva precisa evoluir.

Humanizemos e civilizemos os jogadores, sobretudo os mais jovens. Não deixemos que eles se tornem presas fáceis de empresários e dirigentes, façamos com que saibam lidar com a publicidade e a mídia, que muitas vezes os glamouriza e infantiliza. É preciso escolarizá-los e educá-los adequadamente, levar a sério a tese de que, hoje, nesse mundo intensamente racionalizado, não basta ter aptidões naturais ou talentos mágicos: é preciso saber ler o jogo, incorporar suas exigências, compreender os adversários, absorver intelectualmente a vida em que se joga o jogo. Atletas mal preparados e convivendo em um ambiente inadequado não podem ser competitivos, nem mesmo encantar as multidões.

Seria milagre se o futebol brasileiro não refletisse o desarranjo que há tempo se propaga no país.  A reconstrução do futebol faz parte, em boa medida, da reconstrução nacional.