Morte de Ulrick Beck faz com que a sociologia fique mais pobre

Marco Aurélio Nogueira

12 de janeiro de 2015 | 17h06

Um ataque cardíaco no primeiro dia de 2015 matou o sociólogo alemão Ulrich Beck aos 70 anos de idade. A sociologia contemporânea empobreceu, ficando desprovida da abordagem provocadora e reflexiva daquele que foi professor das universidades de Munique, Bamberg e Münster, professor convidado em Cardiff (Gales) e na London School of Economics and Political Science.

Beck nasceu em 1944 na Pomerânia, cresceu em Hanover e fez todos os seus estudos (sociologia, filosofia, psicologia e ciências politicas) em Munique. Especialmente a partir da publicação de Sociedade de Risco (Riskiogesellschaft), em 1986, tornou-se uma das principais referências das discussões voltadas para a compreensão das novas formas da modernidade e do capitalismo global.

Para ele, a aceleração da mudança, o uso intensivo da tecnologia informacional e o forte processo de individualização/fragmentação fizeram com que a sociedade capitalista saísse do controle, ou ficasse mais descontrolada. Sua racionalidade instrumental passou a ceder sempre mais espaços a uma irracionalidade estrutural que fez com que todos os excessos se multiplicassem, produzindo instabilidade e aumento do risco, uma espécie de “caos estável” ou normalizado. A produção de riqueza trazia consigo a produção social de riscos, de certo modo socializando e democratizando o risco. Nas sociedades da modernização reflexiva — de uma “outra modernidade” — todos teriam passado a ser afetados pelos efeitos socialmente desiguais do risco amplificado.

Nos últimos anos, Beck se tornou um veemente crítico da política alemã sob Merkel, tanto por seus desdobramentos internos quanto pelos efeitos sobre a Europa. Em 2013, publicou o pequeno e contundente A Europa Alemã. De Maquiavel a “Merkievel”: Estratégias de Poder na Crise do Euro (Lisboa: Edições 70, 112p), no qual denunciava a constituição de uma “Europa alemã” e defendia o fortalecimento da união europeia. Beck criticava veementemente a saída de certos países do euro, pois isso criaria uma Europa a três velocidades: a daqueles que conseguiram manter-se na moeda única, a dos que nunca a aceitaram e a dos que foram incapazes de cumprir as exigências da união monetária. Tanto para dentro da Alemanha, quanto para a Europa, seria preciso caminhar em direção a um novo contrato social, capaz de gerar mais democracia.

É um texto tipicamente de Beck: repleto de frases criativas, metáforas e sugestões que nem sempre se mostram factíveis ou coerentes. Alusões a uma possível “primavera europeia”, ao fortalecimento da ação política transnacional e à emergência na Europa de uma “sociedade pós-nacional de sociedades nacionais”, por exemplo, fizeram com que alguns críticos minimizassem as virtudes da análise e de suas conclusões. Como de resto aconteceu com outros livros de Beck.

Sua obra magna foi publicada no Brasil pela Editora 34 em 2010, tradução de Sebastião Nascimento. Na ocasião, tive a satisfação de escrever o texto das abas da capa. Reproduzo-o aqui, como uma pequena e modesta homenagem a este que foi um dos mais instigantes sociólogos do nosso tempo.

A primeira edição de Sociedade de Risco foi publicada na Alemanha em 1986, logo após o acidente de Tchernobil: inesperadamente, uma usina nuclear construída para fins pacíficos e em regime de segurança máxima foi pelos ares naquela cidade ucraniana, espalhando caos e pavor pela Europa e suspendendo a respiração do planeta.

O livro de Ulrich Beck chega ao Brasil comprovando sua atualidade e o vigor de sua argumentação. Afinal, ele coincide com a reiteração de um circuito diabólico integrado por catástrofes, crises e tragédias que se sucedem em âmbito global, inquietam e intrigam. Se incluirmos no circuito a escalada da violência banal, do terrorismo e dos crimes hediondos, a sensação de mal-estar que impregna a vida cotidiana, o retorno de doenças que se acreditava controladas, o desemprego estrutural, a desorientação dos jovens em relação ao futuro e o desequilíbrio ecológico, entre tantas coisas, vemo-nos num cenário que exige explicações no mínimo audaciosas.

Seria esse cortejo de horrores e dificuldades a expressão de acidentes normais, de falhas sistêmicas passíveis de prevenção ou da “vingança” de uma natureza cansada de superexploração? Ainda que tais motivos possam ser plausíveis, não há como descartar a hipótese principal que emerge do presente livro: passamos a viver em meio aos efeitos colaterais de uma civilização — a modernidade capitalista industrial — que regurgitou e saiu dos trilhos, voltando-se contra si própria e escapando dos controles que visam ordená-la.

Mobilizando de modo consistente uma admirável rede de conhecimentos e informações, o livro de Beck converteu-se num clássico contemporâneo. Tornou-se obrigatório para quem deseja entrar em contato com a realidade do mundo atual sem cair na mesmice das denúncias ocas contra a globalização ou o neoliberalismo e sem repetir monotonamente os lugares-comuns das boas e velhas teorias clássicas.

Beck trabalha num espaço de transições. Admite que ainda não vivemos plenamente — em todas e em cada sociedade humana — numa civilização fundamentada no risco, mas também que já não estamos mais ancorados na sociedade industrial vinda do século XIX. Seguimos céleres rumo a uma outra modernidade: tardia, globalizada, radicalizada, reflexiva, que nos conecta numa mesma experiência mundial e, com isso, distribui e socializa todos os ônus e oportunidades. Nessa nova modernidade, “emerge um novo tipo de destino adscrito em função do perigo, do qual nenhum esforço permite escapar”. Os sistemas concebidos para proteger e racionalizar convertem-se em forças destrutivas. Ameaças vêm a reboque do consumo cotidiano, infiltradas na água, em alimentos, nas roupas, nos objetos domésticos. Tudo é processado reflexivamente, quer dizer, mediante discussão, elaboração, troca de informações, que voltam a turbinar o circuito. Trata-se de “uma civilização que ameaça a si mesma”, na qual a incessante produção de riqueza é acompanhada por uma igualmente incessante “produção social de riscos”.

Como então compreender a vida seguindo as mesmas pegadas de antes? Como explicá-la com os conceitos e categorias de sempre? Precisamos urgentemente de interpretações que “nos façam repensar a novidade que nos atropela e nos permita viver e atuar com ela”.

O convite feito por Ulrich Beck nesse livro luminoso e contagiante não se dirige aos que pensam que o mundo está acabando, mas aos que sabem que a vida segue, sempre. Sociedade de risco contém sugestões teóricas poderosas. Provoca-nos com achados inusitados. Impulsiona-nos a olhar além. Projeta-nos no olho do furacão.

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