Modos de derrotar o extremismo

Os democratas chegaram ao 2º turno desnorteados, tendo de se satisfazer com manifestos e declarações de votos úteis antifascistas.

Marco Aurélio Nogueira

24 de outubro de 2018 | 13h22

O extremista não é um democrata. Nenhum deles. Sua natureza é o autoritarismo e a agressividade. Não é um personagem marcado pela serenidade. Para ele, as instituições só importam quando podem ser controladas e submetidas. Sua conduta predominante é a da valorização do chefe forte, invariavelmente mitificado, que tudo sabe e tudo pode, e de quem se devem perdoar todas as falhas, mentiras e grosserias.

Quando de direita, o extremista é um anticomunista no sentido amplo do termo: é contra a esquerda, não só a extrema, mas também a moderada, a social-democrática, a liberal-socialista. Para ele, o “social” é algo a ser alcançado por doações paternalistas, integrado que está por menores de idade incapazes de autodeterminação.

Eleições, para ele, são artifícios a serem suportados e manipulados. O ideal seria que nem existissem. Quando são inevitáveis – males necessários –, é preciso que se ponha o bloco nas ruas do jeito que for possível, preferencialmente de maneira “passional” e pouca reflexiva. Sua melhor chance repousa na capacidade de capturar as frustrações sociais, a raiva acumulada, a decepção popular contra o que está vigorando.

É por isso que o principal modo de derrotar um extremista é pelo voto, em eleições livres. Se o conjunto dos cidadãos puder ser sensibilizado por proposições políticas democráticas suficientemente inteligentes para reter o estado de espírito popular, o extremista terá um desafio que dificilmente conseguirá vencer. Na falta disso, terá toda uma estrada desimpedida pela frente.

Parte expressiva do sucesso de Jair Bolsonaro – que é um extremista à brasileira – se deveu à inexistência de um adversário competitivo que lhe fizesse frente. Outra parte veio da “fúria” popular, de seu cansaço, de seu desejo de renovação e de contestação do status quo político.

Ao menos desde 2013 esse estado de espírito estava visível, pronto para ser assimilado. Nada foi feito. Os partidos democráticos enveredaram por atalhos suicidas, foram se desconstruindo, chegaram a 2018 em frangalhos, como zumbis que insistem em permanecer entre os vivos. Foram incapazes de detectar os sinais que vinham da sociedade. Optaram por cuidar de seus próprios interesses particulares, por litigarem entre si, por se autodestruírem. Deixaram-se iludir por falsas narrativas épicas e por privilegiar moinhos de vento.

Foram egoístas e incompetentes. Iludiram-se ao achar que a escolha de Bolsonaro como adversário ideal os levaria automaticamente à vitória. Alimentaram assim o perigo que agora desejam derrotar.

Não conseguiram produzir nem uma mísera candidatura competitiva. Esfacelaram-se mediocremente. Não pode surpreender a legião de pessoas que pretendem anular o voto. É um número que só aumenta quando mais furiosos ficam o bullying e as lições de moral contra ele, numa coação que nem sequer leva em conta que, na ausência de uma candidatura competitiva, o voto nulo é também uma forma de protesto contra aquele que vencerá, ajuda a deslegitimá-lo.

Os democratas chegaram ao segundo turno desnorteados, cansados de guerra, tendo de se satisfazer com manifestos e declarações de “votos úteis antifascistas”. Não souberam se comunicar, não dialogaram nem ouviram a população. Flutuam no palco como seres perdidos, sem alma, sem cabeça, agarrados a pedaços do que no passado era chamado de “grande política” mas que, hoje, funcionam no máximo como estratégia de sobrevivência.

Sobrevivência, aliás, que já foi garantida pelo PT, beneficiário único dessa situação. Ao receber muitos votos dos democratas não-petistas, o partido entrará em 2019 como representante deles, até por falta de concorrência. Quanto mais votos receber, mais fortalecido ficará. Numa visão otimista, poderá empregar isso para rever a si próprio, cuidar de sua restruturação, reconhecendo que não tem mais capacidade de dialogar com a sociedade que despontou politicamente durante o ano eleitoral. Se, ao contrário, for levado por sua tradicional arrogância, usará o espólio para dominar a oposição e fazer dela seu recurso de legitimação.

Quanto aos demais partidos, terão de comer o pão que o diabo amassou, diabo aliás que dormia dentro de cada um deles. Alguns desaparecerão, outros serão reconstruídos, receberão novo batismo ou casarão com primos distantes. Foram os grandes perdedores, e precisam pagar um preço por isso. Terão de olhar no olho de cada brasileiro para entender o que lhes foi dito e que eles não souberam compreender.

Donde ser possível concluir que o único modo de derrotar o extremismo que nos ameaça está além das eleições. Pode-se continuar por mais quatro dias a agitação “antifascista”. Se der certo e Haddad vencer, o extremismo não sairá de cena, muito ao contrário. Ganhará ainda mais força de expressão, mais razões para se organizar de fato e ultrapassar a fase “espontânea” em que se encontra.

A aposta no empenho eleitoral dos últimos dias faz sentido e deve continuar. O mais provável é que não seja suficiente, simplesmente porque chegou tarde demais, não conseguiu negociar seus termos com a população. A partir de janeiro de 2019, então, outra fase começará. E, nela, irão se revelar de forma plena todas as nossas desgraças e possibilidades. Será aí, então, que se travará o verdadeiro combate contra o extremismo.

Sem a autocrítica profunda e sincera dos democratas, sem sua reorganização, sem uma séria ação pedagógica, sem a elaboração por eles de um projeto consistente de sociedade e de Estado, ficaremos condenados a um longo looping extremista. Culpando-nos uns aos outros diante do espelho da nossa incompetência.

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