Mentiras que matam

Mentiras que matam

Os atuais governantes federais mentem de modo contumaz. Há no País um governo mitômano, que age segundo suas próprias mentiras.

Marco Aurélio Nogueira

10 de dezembro de 2020 | 12h58

Foto Peia S. Dias

A vida está impregnada de mentiras. Dizem que são universais e começam a ser lapidadas desde a primeira infância, na forma da chantagem e de artimanhas para escapar de algum castigo ou obedecer vantagens. Ao longo da vida, não haveria quem pudesse dizer que jamais mentiu. No amor, na cama, na família ou no trabalho.

Há diferentes formas de mentira. Algumas são generosas, compassivas, quando, por exemplo, dizemos a um doente terminal que ele está melhor do que antes. São mentiras que servem para injetar ânimo e esperança, costumam ser vistas como inofensivas ou convencionais, pois buscam evitar constrangimentos ou encerrar uma conversa desagradável. Costumam ser aceitas sem muito questionamento.

Perto delas estão as mentiras para enganar e iludir, como as que acompanham o exibicionismo explícito praticado nas redes, ou que se apresentam em alguns jogos sensuais.

Outras são mentiras agressivas, voltadas para intimidar e causar medo, mesmo quando tentam sugerir o oposto. É invariavelmente vistas com horror, com expressão de fraude e falsidade. Quando Bolsonaro chamou os brasileiros de “maricas” por não enfrentarem a Covid com coragem e de peito aberto, ele ofendeu a todos os que amam a vida e buscam se proteger de doenças. Mostrou inacreditável falta de empatia e compaixão.

A mentira nua e crua, “escarrada”, falsifica dados e informações, manipula fatos e procura enganar os interlocutores. São perversas, cruéis. Foi o caso do mesmo Bolsonaro quando comparou a Covid a uma “gripezinha”, quando recomendou a cloroquina e questionou a validade do distanciamento social. O atual presidente, aliás, é praticante contumaz desse tipo de mentira, que não é inocente, nem se deve a sua compulsão pelo uso folclórico da linguagem ou pelo excesso retórico. Todo o seu ministério o segue passivamente, com maior ou menor servilismo. Um ministério mitômano, que age em conformidade com suas próprias mentiras.

A verborrágica “narrativa” governamental apoia-se em mentiras calculadas, fabricadas para intoxicar redes e pessoas, passando a ideia de que em Brasília há quem cuide do povo e o proteja. São mentiras que causam confusão, medo e insegurança. Os integrantes e apoiadores do governo valem-se delas para espalhar que os “comunistas” estão às portas do Estado, em todos os lugares, que a esquerda é antes de tudo corrupta, que o coronavírus faz parte de um solerte plano de domínio da China, que as vacinas modificam o DNA de quem a elas se submeter. É um bestialógico sem fim, que impressiona por conseguir obter alguma ressonância.

Ainda hoje, 10/12, quando o País chega a 180 mil mortes há alta de óbitos em 22 unidades da federação,  o presidente foi ao Rio Grande do Sul e declarou: “Estamos vivendo um finalzinho de pandemia. O nosso governo, levando-se em conta outros países do mundo, foi aquele que melhor se saiu, ou um dos que melhores (sic) se saíram na pandemia”. É uma mentira grave, proferida com frieza, que esconde fatos e ilude.

O ministro Pazuello mentiu três vezes nos últimos dias. Em alto e bom som, sem ruborizar. Mentiu quando disse que a Anvisa precisa de pelo menos 60 dias para emitir um laudo autorizando uma vacina e que, por isso, teríamos de esperar até março para começar a imunização. Mentiu, depois, quando disse que a vacinação pode ter início “ainda em dezembro”. E mentiu também quando disse ter um plano para ativar o Plano Nacional de Imunização.

Tais atitudes, carregadas de falsidade e simulação, foram adotadas para obedecer ao presidente, o que deixa ainda pior a imagem do ministro da Saúde. Ele por certo desconhece a máxima shakespeariana, segundo a qual  “as pequenas mentiras fazem o grande mentiroso”.

Mentiras deste tipo matam pessoas. Não servem nem sequer para simular que há um gestor em ação. Enganam 200 milhões de cidadãos. Emporcalham o cotidiano, já tão cheio de lixo digital, miséria, sofrimento.

É simplesmente vergonhoso que os atuais governantes federais comportem-se desse jeito. Seria cômico, se não fosse trágico, se não implicasse mais desgraça para a população. É uma atitude que mostra uma face feia do País, a mediocridade de sua elite política, a irresponsabilidade de seus dirigentes.

O governo não consegue perceber o óbvio. O presidente e sua primeira-dama exibem-se em cerimônias para consagrar os trajes com que tomaram posse, numa das mais cafonas cenas públicas das últimas décadas. Libera pistolas de impostos e continua a disparar uma impropriedade por dia. A população anseia por vacinas e não há uma palavra de sensatez por parte dos que foram eleitos para governar a partir de Brasília.

O desgaste é inevitável, porque a população descobre que há somente um responsável por sua insegurança: o presidente e seu governo, que fazem politicagem e pequena política o tempo todo, como se não houvesse nada mais importante a fazer. Empurra-se tudo com a barriga, vacinação à frente.

A História o julgará, mais cedo que se imagina.

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