Manifestações foram contra Dilma e a corrupção, mas não perdoaram as oposições

Marco Aurélio Nogueira

14 de março de 2016 | 12h18

Os céticos, posando ou não de “realistas”, dirão que a multidão do dia 13 não trouxe nada de novo, nem de social ou politicamente relevante. Que ela só serviu para dar vazão à histeria da direita e ao açodamento da grande mídia golpista, alimentando a “excitação alienada” das classes médias (alguns até falarão “pequena burguesia”). Dirão que o “povão” não se mobilizou, como se antes, em outras grandes manifestações de massa, isso tivesse sido a regra. Que, portanto, o protesto não foi representativo da população brasileira.

Teve algo nas ruas que autorize raciocínios assim? Teve, claro, do mesmo modo que se pode dizer que nas ruas sempre circulam ônibus e automóveis. Mas quem quiser analisar a sério as manifestações que ontem encheram as principais cidades brasileiras terá de se esforçar um pouco mais.

Foi contra a corrupção e contra o governo Dilma, em nome do impeachment. Teve foco, mas não perdoou as oposições. As manifestações que encheram as ruas das principais cidades brasileiras foram um brado generalizado contra tudo o que está aí: a crise, o modo de fazer política, os políticos, os partidos, a força do dinheiro nas eleições, a falta de perspectivas e de rumo, o estilo de governo.

Foram a favor da democracia, mas não puderam responder à questão mais importante: como ter democracia com os políticos e os esquemas que se tem hoje? Não basta querer, é preciso saber como fazer.

Em torno do grito uníssono de “fora Dilma” e “fora PT” ocultou-se um feixe de outras reclamações, que alcançam o sistema como um todo. Houve “seletividade”, pois o governo apanhou a torto e a direito, mas as oposições não foram consagradas. Também elas — o PSDB, agora o PMDB — têm motivos para pensar, cálculos para fazer, procedimentos a tomar, caso queiram jogar algum papel no futuro próximo.

Se a saída da crise passa, cada vez mais, pela recomposição da política e dos políticos – seja pela via de uma reforma emergencial, seja pela via de um pacto democrático que supere a polarização maniqueísta que nos trouxe até o ponto atual, seja por um acerto entre as forças de centro –, as ruas deixaram claro que os políticos precisam ouvi-las com mais atenção. Os vetos por elas lançados evidenciaram que não há uma liderança à disposição. Mas, mesmo assim, alguém terá de dirigir o processo político se a questão for preservar as regras do jogo e achar mesmo uma saída.

Quem fará isso não sabemos. Mas sabemos quem não o fará e quem não deve tentar fazê-lo.

A direita fundamentalista, tipo Bolsonaro e Feliciano, não tem densidade suficiente nem a compostura necessária: é uma caricatura regressista. Uma nova direita disputa espaço, não tem maturidade. Os militares não estão interessados e se mostram cientes de seu papel constitucional. Os juízes e procuradores são inadequados, ainda que possam estar interessados. A grande mídia não existe para isso. As redes são plurais, erráticas e pulverizadas demais. O mercado (as grandes empresas, os bancos) sempre optará por emprestar apoio a quem saiba preservá-lo para que se continue a ganhar dinheiro. A esquerda está sem fôlego. Os oligarcas tradicionais já se desfizeram.

Sobram os políticos atuais, especialmente os melhores dentre eles, os que têm autoridade para propor, falar, agregar consensos, atrair formadores de opinião. Para fazerem isso, terão de se impor sobre seus partidos, suas correntes, suas tribos. Sobram os intelectuais, se conseguirem se libertar das camisas-de-força em que se meteram, seja por terem comprado o mingau ideológico que alimenta a polarização, seja por terem se corporativizado e se recolhido a seus escaninhos.

Desta junção de políticos mais qualificados e intelectuais menos ideologizados estarão depositadas as melhores chances para começarmos a abrir as portas que nos levarão à saída da crise.

Primeiro, criando condições para superar a falta de governo. Segundo, retomando a agenda de reforma da política. Terceiro, elaborando uma análise séria sobre a sociabilidade atual, movida a conectividade, individualização, excessos e espetacularização, uma análise que abandone as fórmulas fáceis da “luta de classes”, da “mídia golpista”, dos bons contra os maus, da “elite branca contra o povo pobre” e alcance uma representação consistente dos novos termos da vida social e do jogo político. Quarto, garantindo a continuidade das operações contra a corrupção e a força ilícita do dinheiro na política e na gestão pública. Quinto, inventando novas formas de fazer política e de organizar a política, criando partidos de novo tipo, sacudindo os andrajos dos partidos atuais e cortando os canais que retroalimentam a classe política.

Um acordo parcial – um “acordão” – certamente está sendo gestado nos corredores de Brasília. É a reação natural dos políticos, pagando tributo a uma marca de nossa história, a “conciliação pelo alto”, sem golpe e dentro da lei. Não há porque torcer o nariz para isso: o caminho se faz ao caminhar, com o aquilo que se encontra pela frente. Ele talvez implique a cabeça de Dilma ou sua submissão plena a uma nova maioria, de perfil moderado. Preço alto, mas amortizável.

Um pacto deste tipo poderá nos levar até 2018, mas pouco significará se não vier condicionado pelo respeito às ruas e, sobretudo, pela disposição de começar do começo e de forma substantiva.

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