Mangabeira, os emergentes e o DEM

Partidos de esquerda devem se juntar a Ciro para promover uma “obra de transformação institucional no País"

Marco Aurélio Nogueira

03 Julho 2018 | 14h17

Roberto Mangabeira Unger, professor de Direito de Harvard, é uma cabeça privilegiada, com larga produção intelectual e muito prestígio. Atua há tempo como conselheiro de Ciro Gomes, a quem fornece ideias e insights.

Numa recente entrevista concedida ao Estadão, ele saiu do terreno da filosofia política e propôs-se a justificar as razões que têm levado Ciro Gomes a procurar o apoio prioritário do DEM na frente de partidos que deseja organizar.

A entrevista é, evidentemente, inteligente. Mas também é confusa, refletindo a “ansiedade” que está levando a campanha de Ciro a disparar em várias direções.

Segundo o professor, o DEM é o partido dos “empreendedores regionais” e tem raízes na “estrutura produtiva descentralizada do País”. Por isso, está mais próximo da esquerda do que da centro-direita ou da direita. Uma aliança com os Democratas, portanto, não é mero “oportunismo tático”, mas a busca de um nexo programático inerente a uma plataforma de esquerda, como a que teria Ciro Gomes. Mangabeira repudia o “sectarismo ideológico” e pensa que a candidatura de Ciro precisa afirmar uma dupla face: “de um lado, é uma candidatura de centro-esquerda, que prioriza as alianças com partidos desse campo, a começar pelo PSB e PCdoB. Do outro lado: deve se oferecer também ao agente social mais importante do Brasil de hoje, que são os emergentes”.

Para a campanha de Ciro, a ideia de Mangabeira serve para que se justifique uma aliança pela direita em nome de uma aliança pela esquerda, num equilíbrio complicado que ainda não obteve explicação razoável.

Os emergentes são de fato um tema a ser interpelado, até por expressarem o novo mundo que desponta. Mas não podem ser tratados de forma genérica. Anos atrás, quando do auge das políticas de transferência de renda e de crédito facilitado, falou-se muito de uma “nova classe média”. Sociólogos descobriram que por debaixo das camadas de pobreza e exclusão proliferava uma legião de pessoas que ralavam e se viravam de mil maneiras. A sombra do trabalho informal pairava sobre esses novos trabalhadores, aos quais se agregavam-se os micro e pequenos empresários, os “empreendedores”, vindos das classes médias tradicionais e de muitos setores populares. De lá para cá, esse contingente só fez crescer.

Tudo isso tem relação com os novos grupos e estratos que emergem a partir da crise do mundo do trabalho, do desemprego estrutural e, também, da profunda alteração ocorrida nas predisposições e expectativas com relação à vida futura. Não ter patrão, ser dono do próprio negócio e trabalhar de modo flexível tornaram-se uma espécie de “nova utopia”, criando assim uma área social de importância crescente.

Somando-se tudo, tem-se uma massa heterogênea, difícil de ser acomodada em uma única categoria. Mangabeira sabe disso: “Quem são os emergentes? Em primeiro lugar, é uma pequena burguesia empreendedora mestiça e morena que luta para abrir e manter pequenos negócios. Em segundo lugar, é uma massa de trabalhadores ainda pobres, mas que mantém dois ou três empregos. Em terceiro, é a multidão que é maioria pobre que já tem os olhos vidrados na vanguarda dos emergentes”.

O problema é que o professor de Harvard separa sociologicamente os “emergentes” para logo depois unificá-los politicamente a partir do DEM, atribuindo a esse partido uma espécie de monopólio de representação.

A tipologia dos emergentes é sugestiva, ainda que não esteja fundamentada por uma pesquisa sistemática. Afinal, o interesse de Mangabeira parece ser tão somente justificar a aproximação entre Ciro e os Democratas. Para tanto, nada melhor do que apresentar o DEM como progressista.

A perspectiva também passa por um esforço para repaginar Ciro, fazer com que ele apareça como mais flexível, interessante e palatável, mostre o que nem sempre é compreendido. O mercado, por exemplo, resiste à aproximação por não ter entendido Ciro: “O que há de mais legítimo nas preocupações do mercado financeiro é o realismo fiscal. Ninguém que esteja atuando no primeiro plano da política brasileira demonstrou mais compromisso com o realismo fiscal que o Ciro”.

Para os partidos de esquerda, o discurso de Mangabeira traduz-se num convite: aliem-se a Ciro para promover uma nova “obra de transformação institucional no País”, que ultrapasse o corporativismo de Getúlio Vargas. Para o professor, “as candidaturas de Lula e Ciro não são dois cavalos andando na mesma direção. Tenho imenso respeito pelo ex-presidente Lula, mas vejo que, se amanhã ele voltasse à Presidência, a tendência seria continuar o que fez antes: essa popularização do consumo com o mínimo de construção institucional. É uma forma de fazer política que privilegia apenas o consenso”.

Em suma, o futuro não pode vir da mera reposição do que se fez ontem, mas da inauguração de um ciclo inteiramente novo, para o qual Ciro seria o melhor nome. O suposto da ideia é correto, o personagem escolhido para traduzi-la, nem tanto.

Mangabeira Unger tem se dedicado, nos últimos anos, a repensar a condição da esquerda no capitalismo globalizado. Seu ponto de partida é o esgotamento das propostas ideológicas dos últimos duzentos anos, o que para ele impõe um esforço de reinvenção programática que se estruturaria com os olhos nas alternativas nacionais e numa nova globalização.  Ele acredita que oportunidades progressistas aparecem a todo momento, mas somente poderão ampliar nossa capacidades práticas se forem adequadamente reconhecidas é que. Tem-se batido para esclarecer que uma esquerda governante deve ir além da redistribuição compensatória e do controle da economia.

É com esse espírito arejado que tem procurado aconselhar Ciro.

Mas Mangabeira também é conhecido pela apresentação de planos e propostas mirabolantes, arquitetados a partir de seu gabinete em Harvard, das constantes viagens que faz ao Brasil e do contato ativo que mantém com vários interlocutores. Foi ministro de Lula e de Dilma, quando se envolveu em polêmicas com Marina Silva e os ambientalistas. Chegou a criticar o governo Lula como “o mais corrupto da história” para depois se derramar em elogios ao ex-presidente.

Por enquanto, não se revelou  em política o estrategista que gostaria de ser.