Luta de classes não explica déficits de liderança e coordenação política

Marco Aurélio Nogueira

14 de março de 2015 | 18h23

Convidado de honra nos atos que ontem e anteontem encheram as ruas para defender a Petrobras, o governo Dilma e a reforma política, João Pedro Stedile, principal liderança do MST, esteve com a língua afiadíssima. Mais atacou os adversários do governo do que defendeu Dilma. Contra a Presidente, aliás, foi particularmente duro.

Ontem, no Rio, foi de rara agressividade: “Dona Dilma, se tem coragem, saia do Palácio e vem aqui prá rua para ouvir o que o povo quer de mudança”. Ele acredita que a Presidente deve suspender a política econômica de ajuste porque ela fere direitos trabalhistas e beneficia os bancos. Além do mais, acha que o ministro Joaquim Levy é um “infiltrado” do mercado no governo petista e não deveria continuar. E mandou um recado arrogante e provocador: “Estamos dizendo para a burguesia: não se atrevam a falar em golpe”, pois o MST irá “engraxar as botas para voltar a ocupar as ruas do Brasil”.

Atos em praça pública são momentos de agitação, não de análise ou reflexão. Muitos descontos devem ser dados a Stedile por causa disso. Seus tropeços teóricos e seu entusiasmo político talvez sejam corrigidos em ambientes mais serenos e reflexivos. Mas não deixam de chamar atenção, como exemplo de uma analítica que parece crescer, hoje, nos ambientes governistas e petistas, a complicar um pouco mais o quadro e a dificultar o encaminhamento de soluções democráticas para a crise que está aí.

Na sexta-feira, em Porto Alegre, Stedile foi veemente: “o que temos hoje é só o começo do jogo da luta de classes, porque democracia se faz nas ruas”.

Os governistas estão convencidos de que os problemas do governo Dilma derivam de um aguçamento da luta de classes: são o resultado do reaparecimento da direita na política brasileira, uma espécie de vingança dos ricos e da burguesia contra um governo reformador e popular. Dilma estaria cercada por inimigos do reformismo social, gente que se moveria por ódio e ressentimento, instigada por uma mídia categoricamente golpista. Nada escapa deste quadro: qualquer crítica ou manifestação, qualquer atitude ou palavra que não se submeta ao manual de procedimentos do governo teriam de ser sumariamente desconsideradas e combatidas como materialização de um “terceiro turno” antidemocrático.

Como marxista que é, Stedile deveria saber que o “jogo da luta de classes” não tem começo e fim: é parte da estrutura da vida e da história. Pode ter picos de aquecimento e outros de arrefecimento, mas está sempre ativado. Os bons partidos e os bons políticos trabalham para traduzir a luta de classes — os conflitos sociais, as contradições, as tensões — em matéria-prima e combustível para transformações substantivas na vida, no Estado, na política, na economia. Não podem ser indiferentes a este jogo, mas também não devem ser arrastados por ele nem muito menos atuar para produzir rupturas dramáticas, ao menos enquanto não houver a devida correlação favorável de forças.

Sabem, também, que a democracia se faz nas ruas, mas não somente nelas. A participação das massas é vital e deve ser buscada de forma permanente. As pessoas que foram às ruas para aplaudir o governo ontem valem tanto quanto as que saírem de casa para criticá-lo amanhã. Se fizerem isso de modo pacífico e com senso cívico elevado, todos ganharão.

Mas o que ocorre fora das ruas pesa tanto quanto e em muitos aspectos chega mesmo a ser mais importante. Qualquer reducionismo, aqui, empobrece de tal modo a democracia que termina por convertê-la em seu contrário.

O foco principal da construção democrática — da defesa e do fortalecimento da democracia — está no debate público, no circuito cultural, na educação, nas escolas, nas instituições políticas. Somente cidadãos esclarecidos podem valorizar a democracia e se dispor a protegê-la, estejam eles organizados em partidos ou não. Posicionamentos democráticos são maiores do que a defesa de interesses localizados, implicam incorporação de valores, respeito a procedimentos e disposição dialógica, o que nem sempre surge espontaneamente das ruas. Precisam de locais e instâncias onde possam ser processados e organizados numa agenda acordada minimamente entre os diferentes protagonistas. Se não for assim, as ruas podem produzir guerra e violência, não soluções democráticas

Além disso, as ruas nem sempre ajudam: se estiverem mal direcionadas, por exemplo, podem atacar a democracia ou ficarem expostas à ação sibilina de gente que nada tem de democrática, ou ainda se converterem em manifestações que acobertam atos governamentais condenáveis, terminando por defender o que vai contra a democracia. Atos de massa precederam a queda de muitos governos progressistas no mundo ou forneceram alimentos para a ação de golpistas antidemocráticos.

Tudo isso é sabido, mas nem sempre é considerado pelo essencialismo de esquerda que converte a luta de classes em um princípio de agitação e justificativa, não num critério de análise política.

A crise atual, como qualquer outra crise, tem a ver seguramente com luta de classes: condensa as contradições que atravessam hoje a sociedade brasileira. Tal reconhecimento ajuda decisivamente a que se componha o quadro para além da superficialidade. Deveríamos partir daí para compreender a crise e tentar resolvê-la. Isto, porém, não significa que o governo Dilma seja uma vítima das contradições sociais, até mesmo porque é parte ativa do jogo: colhe o que plantou nos últimos 12 anos. Se a sociedade está hoje dividida entre os que são contra e os que são a favor do governo é porque o governo petista, no correr das últimas décadas, também trabalhou para isso e não soube, digamos assim, organizar a luta de classes para ajudá-lo a governar e a mudar o País. Ele e os demais protagonistas da luta política que se trava no Brasil, os outros partidos. É importante que se diga isso: ninguém mostrou virtude suficiente para impulsionar a sociedade no rumo da autonomia e do ativismo político democrático.

Falhas de planejamento, falta de clareza projetual, decisões equivocadas e déficits de liderança política não podem ser atribuídos aos desejos ocultos ou manifestos da “burguesia” contra os trabalhadores. Serão sempre, hoje ou amanhã, limites subjetivos.

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