Lula, o homem de partido e o PT

Marco Aurélio Nogueira

25 de junho de 2015 | 19h55

Não houve quem não tentasse compreender as últimas intervenções públicas de Lula. Elas foram bombásticas, aparentemente um arroubo passional, mas estiveram longe de cair na vala comum das diatribes ocasionais.

Lula tem seus motivos. Sabe que seu futuro depende de uma nova sintonia com o sentimento e as expectativas dos brasileiros, hoje majoritariamente em atrito com a área de influência governamental e do PT. Nada melhor, para isso, do que se posicionar acima de um (o governo) e de outro (o partido). Não seria culpa sua se as coisas andam mal. Ele, vítima de fatos e tropeços, continua firme como uma rocha, onde sempre esteve. O problema é que não o estão a ouvir. Assim, não há remédio a não ser falar mais e mais alto.

Como se se referisse a um objeto que não lhe diz muito respeito, Lula foi direto na jugular: “O PT está velho (…). Fico pensando se não está na hora de fazer uma revolução neste partido, uma revolução interna, colocar gente nova, mais ousada, com mais coragem. Temos que definir se queremos salvar a nossa pele e os nossos cargos, ou salvar o nosso projeto”.

Falas de Lula – como as de qualquer político – precisam ser decodificadas, para que se compreendam suas reais intenções e se alcancem suas constantes, suas palavras-chave. Nas intervenções da última semana, reafirmou-se um estilo que concede tudo às facilidades da palavra improvisada, que não ousa dar passos claros ou ensaiar análises mais abrangentes, que responsabiliza os outros sem jamais se responsabilizar. Nelas, Lula voltou a emergir como um personagem de si mesmo, uma obra autorreferenciada, com começo, meio e fim, um movimento maior que todos os movimentos.

Os petistas se acostumaram a tratar Lula como “nosso líder maior”. Não o questionam jamais, nem sequer à boca pequena. Respeitam-no como aquele que pilotou a grande guinada política do partido e o fez enveredar pela trilha do pragmatismo, engavetando sonhos e utopias em troca de votos e recursos de poder. De certo modo, parecem temer Lula, pois ele, mais que um homem de partido, sempre fez questão de ser maior que o partido, usando-o como plataforma de sua atuação política. Aceitaram que ele assim agisse, convencidos de que a liderança carismática do personagem promoveria a chegada do partido ao céu. Em parte isso aconteceu de fato, mas não sem efeitos colaterais, alguns dos quais estão cobrando seu preço agora.

É sempre assim: partidos servem aos políticos, são ferramentas para serem utilizadas, abrigos para onde correr quando as coisas pioram. No Brasil são inúmeros os políticos que extraíram tudo o que puderam de seus partidos para depois trocá-los por outro. Partidos não são, porém, somente isso. Os melhores deles procuram lutar para que líderes, correntes e facções não lhe tirem todo o sangue e toda a fibra. Orgulham-se de sua história e tentam reagir quando ameaçados. Buscam equilíbrios internos e ajustes entre indivíduos e vida coletiva. Quando não conseguem, são abatidos pela tragédia do culto à personalidade. Ou são confundidos e inviabilizados pelos acontecimentos ou pelas mudanças estruturais.

Líderes que são homens de partido não se põem acima dos partidos: confundem-se com eles, diluem-se neles, afinam-se com suas ideias. Nos momentos de crise, cortam a própria carne e buscam saídas que reergam o coletivo. Sabem trabalhar o amor-próprio que toda organização tem. Sua crítica é sempre autocrítica.

Neste momento difícil e quase agônico do PT, Lula optou por atacar o partido para livrar a própria pele e poder voltar a sonhar com a Presidência em 2018. Resolveu hostilizar Dilma para dela se afastar. Com esta dupla investida tentou mostrar ao mundo que continua vivo e com força suficiente para ser candidato de si próprio. Criou certamente um fato. E se os petistas e especialmente a cúpula partidária continuarem a achar que seu “líder maior” permanece a iluminar a estrada para o futuro como uma espécie de guia genial, então é porque o PT abriu mão de se reproduzir como um partido digno deste nome.

Seria ingênuo imaginar, agora, uma ruptura entre Lula e o PT. Ninguém rasga dinheiro assim. Lula precisa do PT tanto quanto o PT precisa dele. Se, porém, não acertarem o passo, o desfecho tenderá a ser ruim. Poderão até continuar andando abraçados, mas à frente encontrarão somente um precipício. Aí então, com o travo amargo da derrota pesando na boca, já não mais haverá tempo para novos arranjos e recomposições.

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