Livro do jornalista Nirlando Beirão faz celebração à vida

Livro do jornalista Nirlando Beirão faz celebração à vida

Saga amorosa dos avós serve de base para reflexões pessoais e demonstração de resiliência

Marco Aurélio Nogueira

27 de dezembro de 2019 | 11h31

O jornalista Nirlando Beirão tem longa e vitoriosa trajetória na imprensa brasileira. Trabalhou na Última Hora, no Jornal da Tarde, no Estado de S. Paulo, em Playboy, Veja, Istoé e Carta Capital, entre tantos outros jornais e revistas.  Transitou “por toda publicação que se possa imaginar”. Seu texto sempre foi apreciado como um dos melhores. Em 2016, foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA). Publicou Meus Começos e meu fim (Companhia das Letras) no início de 2019.

O livro combina as reflexões de Nirlando sobre a convivência com a enfermidade e as pesquisas que fez sobre um episódio marcante da história dos Beirão, que definiu a trajetória da família. Um avô padre que um belo dia se apaixona e resolve se casar é um excelente assunto literário. Nirlando agarra o fato e o vira de ponta-cabeça, deixando fluir uma versão romanceada de jornalismo investigativo. Dá um show.

A decisão de escrever o livro tem a ver, quero crer, com a vontade de acertar as contas consigo mesmo, com a família e sua história pessoal. É uma espécie de autobiografia, que também narra a saga amorosa dos avós. Lê-se o livro com prazer e emoção. Nirlando é um artesão. As frases saltam com naturalidade e envolvem o leitor, impedindo-o de interromper a leitura, seduzido pelo ritmo do texto e pela história que é ali narrada. A trama cativa, é costurada com engenho, muita sensibilidade e boa dose de coragem.

Nascido em 1887 na Beira Alta, em Portugal, António Cabral Beirão formou-se padre no seminário de Viseu, juntamente com António Salazar, o ditador que governou o país por quatro décadas. No início do século passado, o padre Beirão veio para Oliveira, no interior de Minas Gerais. Lá, responsável pela paróquia, encantou-se pela jovem Esméria Miranda e trocou a batina pela vida mundana, o amor divino pela paixão terrena. Escândalo. O casal teve de fugir de Oliveira, estigmatizado pelo provincianismo carola da época. Foi para Alegrete, no Rio Grande do Sul, onde o ex-padre abriu um ginásio. António e Esméria deixaram para trás sua história, legando um “tabu familiar envolto em sussurros e em culpa”. Só mais tarde voltariam para as Gerais.

Nirlando foi atrás dessa história, trafegando “pelos interstícios do silêncio sufocado” e pelo esforço familiar de “calar, pelo pavor da danação eterna, uma bela história de amor”. Carrega-nos por um passeio fascinante pelo passado de Minas e de Portugal. Conta-nos muito sobre as manias da época, sobre o percurso vitorioso do avô, as idiossincrasias familiares, sobre portugueses, mineiros e brasileiros.

Tudo isso é entrecortado e amarrado pelas pungentes reflexões de Nirlando sobre sua condição pessoal. A ELA, como se sabe, é uma enfermidade cruel, progressiva, que degenera o sistema nervoso e acarreta paralisia motora progressiva, irreversível. Ao destruir músculos e células nervosas, maltrata o organismo como um todo, obrigando o paciente a um circuito angustiante e permanente por médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos.

A instalação e o avanço da enfermidade seriam motivo suficiente para a formação de um estado depressivo intenso. É preciso acostumar-se com a ideia de “limite”, com os tombos, o risco da autocomiseração e o fantasma da culpa. Escrutinar o futuro insondável em busca do tempo que resta torna-se tão recorrente quanto se deixar aprisionar pelo passado, “enumerando como numa penitência sem remissão, tudo aquilo que nunca fiz e que talvez devesse ter feito – e que nunca mais farei”.

Nirlando não se deixou consumir. Continuou a escrever, tentando encontrar um sentido para a vida, que foi posta de pernas para o ar mas não o derrotou. Passou a viver no “País da doença”, diferente de tudo, mais complicado, mais aterrorizante, um território onde se dá “a suspensão de tempo e espaço”, uma espécie de “transitoriedade do permanente”, no qual se vive “pela intoxicação do sentimento” e pela recepção das “surpresas trazidas pelo cotidiano, mesmo quando dolorosas”. Um exílio autoimpingido.

Seu “romance autobiográfico”, escrito com leveza, algumas pitadas de ironia, um pouco de amargura e bastante realismo diante dos efeitos práticos e existenciais de sua condição, é uma aula de resiliência. Mostra que a vida é mais forte e vibrante do que quer nos fazer crer o vão derrotismo. Tudo, no fundo, só acaba mesmo quando termina, para todos e cada um de nós.

Atravessar com altivez os mares revoltos e traiçoeiros da vida é uma sabedoria rara, que explode nas páginas de Meus começos e meu fim.