Intelectuais, gestão e poder político: caso de amor mal resolvido

Marco Aurélio Nogueira

03 Outubro 2015 | 17h11

Intelectuais não costumam se dar bem com cargos políticos e administrativos, que os confrontam com lógicas estranhas a eles.

Mesmo quando exercidas nos ambientes naturais em que os intelectuais atuam – universidades, escolas, institutos de pesquisa, organizações culturais –, as atividades de gestão não são as que melhor se coadunam com aquilo que sabem e gostam de fazer: escrever, dar aulas, debater, pensar, representar, criar. Não é por acaso que, quando vão para a gestão, os intelectuais se confundem, se angustiam, interrompem pesquisas e ciclos criativos, ficam em busca de algum porto seguro para atracar.

Alguns se atiram de cabeça no novo campo, descobrem no âmago um talento que não sabiam possuir, uma inclinação inata, e jamais retornam o que eram ou faziam antes: tornam-se gestores para sempre, recompondo a identidade e a inserção institucional. Quando são bons, passam a dar importante contribuição a seus pares. Nenhuma instituição científica, acadêmica ou cultural que se preze pode dispensar a presença ativa de pessoas assim. Outros, ao contrário, se atormentam, metem os pés pelas mãos e depois de um tempo desistem, voltando às origens.

É muito pior quando o intelectual é convidado a ocupar cargos imediatamente políticos, ainda que com dimensão técnica e cultural. O dilema aumenta, até porque a gestão política tem razões próprias, que não se submetem a racionalidades distintas: ela é possessiva, quer seu ocupante por inteiro, como se desejasse asfixiá-lo, domesticá-lo, submetê-lo. As razões político-administrativas colidem com a razão do intelectual e precisam conseguir sobrepujá-la. Exigem que o intelectual vista uma segunda pele, que o incomoda e o deixa sem jeito. Um peixe fora d’água.

O intelectual sabe que, ao ser convidado com pompas e circunstâncias para um cargo político que faz interface com a esfera técnica em que é especialista, corre o risco de estar sendo chamado para compor um cenário. Poderá ser mera cereja no bolo, a ser devidamente exibida para convidados ilustres ou para o dileto público. Sabe, em suma, que será usado, instrumentalizado pelo chefe, pelo líder político, pelo partido que governa, pelos parlamentares e lobistas. Despertará inveja nos que julgam merecer o mesmo tratamento de distinção ou que gostariam de estar no lugar dele, por acharem que poderiam fazer melhor o serviço político que o intelectual não consegue, não sabe ou não quer fazer.

Muitos intelectuais, porém, pensam que vale a pena pagar o preço e correr o risco. E se sua contribuição técnica, afinal, puder fazer a diferença?

Há casos de intelectuais que transitaram sem dor nem sofrimento para a vida política e partidária. Tornaram-se quadros. Alguns conseguiram até mesmo manter o pique intelectual, ainda que abandonando programas sistemáticos de pesquisa. O caso mais emblemático talvez seja o de Fernando Henrique Cardoso, que deixou o trabalho de sociólogo – no qual dera extraordinária contribuição e era figura-chave – para enveredar pela política e se tornar presidente da República. Há certamente outros, menos emblemáticos. Muitos diplomatas, por exemplo. Bresser-Pereira permaneceu vivo intelectualmente durante os largos períodos em que se dedicou à gestão pública e empresarial. Mas quando Gil foi ministro da Cultura, parou de fazer música. Joaquim Nabuco somente conseguiu realizar a pesquisa com que escreveu Um Estadista do Império quando saiu da política e caiu no ostracismo.

Roberto Mangabeira Unger, catedrático em Harvard e que todos reconhecem como um intelectual de primeira linha, entrou e saiu de governos sem deixar rastros. Sempre foi considerado um estranho no ninho. Transitou pela Secretaria de Assuntos Estratégicos em nome do desejo de contribuir para o país que carrega no peito e no qual é quase um estrangeiro. É um case perfeito do intelectual que não consegue achar seu lugar na mesa dos convidados. Buscou funcionar como uma espécie de provocador permanente, dedicado a forçar as agendas governamentais. Consta que disse certa vez que se dedicaria a “criar tensão dentro do governo e agitação fora dele”, algo importante num país que ele vê como sendo uma “grande anarquia criativa”. Papel difícil de ser assimilado pela positividade da política prevalecente.

Tudo isso é polêmico e não tenho qualquer pretensão de encerrar uma discussão que precisa seguir aberta. Gente muito mais competente tem examinado o tema ao longo do tempo sem que se chegue a uma conclusão cabal e definitiva. Basta lembrar de Norberto Bobbio e de seu Os intelectuais e o poder (Editora Unesp, 1997).

A questão das relações entre os intelectuais e a política – e, mais ainda, entre os intelectuais e o poder – jamais deixou de estar no centro das atenções. Com o que ficar: com a verdade do conhecimento ou com os fatos do poder, com as convicções ou com as responsabilidades, com as dúvidas “pessimistas” da razão crítica ou com as certezas inquebrantáveis e quase sempre “otimistas” da vontade política? Como combinar e equilibrar os dois tipos de apelos? O que esperar do intelectual que chega ao poder ou dele se aproxima? Que rompa com as exigências da política e do governo ou que se afaste da condição de intelectual?

Bobbio estava convencido de que entre intelectuais e políticos existe um hiato difícil de superar. Acreditava que não há porque nutrir ilusões a respeito da função imediatamente política dos intelectuais, tanto no que diz respeito às suas tomadas de posição quanto a seus projetos de sociedade. A “política da cultura” e a “política dos políticos” deveriam ser mantidas bem separadas, imersas em suas lógicas próprias.

Bobbio debruçou-se sobre a ética dos intelectuais, sobre o que deveriam ser ou fazer. Acima de tudo, dedicou-se a refutar a ideia de que os intelectuais são uma categoria homogênea, distinta das demais, à qual se possa atribuir a cada um deles a mesma função diante do poder. Ajudou-nos a entender que os intelectuais são seres de carne e osso, sujeitos aos humores do tempo e às fraquezas demasiadamente humanas do humano.

No Brasil das últimas décadas, a questão esteve sempre na agenda. Muito já discutimos sobre a tensa, complexa e dinâmica relação dos intelectuais com o poder, sobre os dilemas, as correções de rota, as transmutações a que se viram levados quando postos em contato com a política prática e as exigências do poder político e de suas potências diabólicas. Continuaremos a dar atenção ao tema, com certeza.

Pensei nisso tudo ao pensar na demissão de Renato Janine Ribeiro. Ele deve ter sido bem tratado na entrada e na saída, até porque é pessoa educada e cordial com todos. Mas não lhe deram nem chance nem tempo de encontrar seu lugar no vértice superior da administração pública e da política nacional. A contribuição que poderia ter dado dissipou-se no ar, revelando uma das facetas mais cruéis da política que se faz hoje entre nós.

Para sua e nossa sorte, está de volta às lides intelectuais, nas quais se movimenta tão bem.

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