Incandescência e desorientação: quando a alta temperatura não produz luz nem fatos positivos

Marco Aurélio Nogueira

29 de março de 2015 | 18h58

Não foram somente o 15 de março, a demissão do ministro Cid Gomes, a queda vertiginosa dos índices de popularidade da Presidente e o documento-bomba da Secretaria da Comunicação Social, mas estes acontecimentos e o cruzamento diabólico entre eles deram o tom da chamada conjuntura política das últimas semanas. Chacoalharam o governo Dilma, aumentaram os desencontros em seu interior e lançaram uma perturbadora interrogação sobre o que serão seus próximos quatro anos.

O governo Dilma, porém, não acabou e seria um erro dar como favas contadas que não terá como se recuperar. Ficou mais difícil, mas não impossível.

Se o 15 de março e a queda de popularidade mostraram que a resistência social ao governo está se convertendo em fato político, os outros dois acontecimentos revelaram um governo com demasiados problemas internos, desorientado e carente de articulação.

Um governo sem rumo e sem unidade torna-se produtor de problemas, não de soluções. Ter um governo assim logo no início de um período governamental é algo que excita seus adversários e alimenta a crise. Mostra, por exemplo, que não há plano de voo e que não se pode saber quem apoia a Presidente e quem lhe faz oposição. Turvam-se as águas, aumenta a confusão. As próprias forças tidas como sustentáculo governamental – o PT e o PMDB – se dessolidarizam e ficam, cada uma a seu modo, fazendo somente o próprio jogo, sem sincronia com o Palácio do Planalto. Fazem contas para saber como evitar os respingos da crise. Passam a olhar para as eleições municipais de 2016, ao passo que a Presidência precisa olhar para o dia-a-dia e para 2018.

PT e PMDB podem até fazer juras recíprocas de amor, falar bem de Dilma em público, mas por trás do pano agem de forma defensiva, terminando por produzir desgastes e contrapontos. Não é somente Eduardo Cunha, este presidente da Câmara que opera sem pudor em favor dos próprios interesses, age corporativamente e consegue se fortalecer mesmo cercado de suspeitas, mostrando ser um animal político difícil de enfrentar. É ele, com certeza, mas também é o PMDB como um todo e parte importante do Congresso Nacional.

O caso Cid Gomes chamou atenção pela incandescência e pelo baixo nível. O ex-ministro fez seus cálculos. Não queimou munição à toa, num ímpeto de descontrole emocional. Quis sair de dedo em riste, como aquele que confrontou os que “achacam” a República. Jogou para uma parte da plateia, que não suporta os políticos atuais. O episódio foi péssimo tanto para o Planalto quanto para a imagem do Parlamento e deixou patente que falta graxa nas relações entre os poderes da República, que não há qualidade no ministério, que o Legislativo é hoje uma bomba que explode a intervalos regulares, sem que haja quem a desarme. Os pedaços do Congresso que desafiam a Presidência deitam e rolam na mesma proporção que os demais pedaços não se movimentam.

O documento da Secom – divulgado pelo O Estado de S. Paulo dias atrás – foi sintomático. Podemos deixar de lado suas impropriedades (a confusão entre governo e partido, por exemplo) e ficar somente com o que disse a respeito do “caos político” que estaria a ser fomentado pela inação governamental. Segundo o texto, “o governo e o PT passaram a só falar para si mesmos”. Foi um diagnóstico duro, incômodo, chega a ser surpreendente que tenha chegado ao grande público. O ministro responsável pelo texto se demitiu, mas o estrago se espalhou. O presidente do PT, Rui Falcão, fez crescer o vespeiro, ao propor que o governo corte a verba de publicidade destinada a veículos de comunicação que “apoiaram e convocaram” as manifestações.

O 15 de março ajudou, de forma ruidosa e polifônica, a descortinar a desconexão entre o Palácio e as ruas. Diante dele, o governo falhou duplamente. Errou ao responder por dois porta-vozes que não conseguiram expressar a gravidade do momento, como se ao governo fosse indiferente o protesto, e errou na análise do fato.

Nem ele, nem seus apoiadores, parecem entender o que está acontecendo com as ruas do País de 2013 para cá. Não decodificaram as vozes que se manifestaram ostensivamente contra a Presidente agora em 2015. Optaram por tentar deslegitimar a manifestação, convertendo as pessoas em massa de manobra da “elite branca” e da “mídia golpista”. Pior que isso, não conseguem explicar porque a “direita” mostra hoje tanto vigor, a ponto de fazer inveja à “esquerda”. Aceitam com incrível facilidade a tese de que os “ricos” têm “ódio” de Dilma e do PT. Estão congelados na mesmice adjetivada, repetindo que a parte (as faixas pedindo intervenção militar) explica o todo, que o 15 de março fez lembrar a Marcha com Deus pela Liberdade de 1964. Querem banalizar a multidão, mas só fazem irritá-la.

As ruas não se movem por utopias substantivas, não têm um programa com que lutar. São contra Dilma, políticos e partidos. Não são a favor de nada. Exprimem uma gigantesca insatisfação social com a política, processo em que se misturam indignação, ressentimentos e frustração.

Mas pau que bate em Chico também bate em Francisco. Não é só o governo que está à deriva, mas o País todo, o sistema político tal como em funcionamento. Hoje, o que prejudica o governo não beneficia a oposição a ele. Não há partidos, núcleos democráticos articuladores ou dirigentes políticos a lucrar com a crise, fato que faz o quadro ficar ainda pior. Quem fala pela oposição? O que faz ela, qual seu programa de ação? Se há bons nomes para liderar os que se opõem ao governo, por que não assumem o primeiro plano e se apresentam para “salvar” a República?

A resposta provável talvez nos ajude a relativizar a situação. Os lideres oposicionistas não se projetam pelas mesmas razões que fazem a Presidência sangrar a céu aberto: porque não dispõem de nexos com as correntes vivas da sociedade. É aí, nesta praga maior do capitalismo líquido e globalizado, que reside o maior desafio. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 28/03/2015, p. A2].

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