Impropérios internacionais

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Que diabos há na cabeça de Bolsonaro ao hostilizar a Argentina e mexer com seus brios?

Marco Aurélio Nogueira

15 de agosto de 2019 | 17h44

Ao dizer que “bandidos de esquerda” começaram a voltar ao poder na Argentina, por conta do resultado das primárias eleitorais em que o peronista Alberto Fernández derrotou Maurício Macri, o presidente Jair Bolsonaro. Comete erros aos borbotões. Mostra inédita grosseria antidiplomática e completa ignorância em temas e posturas de política externa.

Nunca foi razoável que se criem atritos entre Estados em função de disputas eleitorais próprias de cada país. A não ingerência em assuntos internos é cláusula pétrea nas relações diplomáticas, especialmente em termos retóricos, quer dizer, nos discursos e narrativas oficiais. No mínimo porque as consequências são sempre negativas.

A Argentina é um país fronteiriço, parceiro em atividades econômicas, comerciais, militares. Com ela o Brasil compartilha histórias e interesses estratégicos. Ambos os países passam por dificuldades e enfrentam múltiplos desafios no plano fiscal, econômico, político e social. Mastigam, mastigam, mas não conseguem digerir os males que os afligem. Deveriam cooperar e trocar figurinhas.

Que diabos há na cabeça de Bolsonaro ao hostilizar a Argentina e mexer com seus brios? E se Fernández for o próximo presidente do país? Pontes estarão estremecidas. Ele respondeu subindo o tom: Bolsonaro é “um racista, um misógino, um violento”. O clima azedou, e por certo as declarações não beneficiaram em nada a Mauricio Macri, que Bolsonaro considera seu aliado, ainda que entre a centro-direita de um e a extrema-direita de outro existam quilômetros de distância.

Tratar políticos de esquerda como “bandidos” só faz demonstrar a inaptidão democrática de Bolsonaro. Expressa uma discriminação estranha às regras do jogo da democracia representativa. É pura manifestação de preconceito e de vontade de posar de macho para fazer festa a seus seguidores mais fanáticos e obtusos.

Bolsonaro não conhece a fundo Alberto Fernández, que está longe de ser um “esquerdista incendiário” e tem uma biografia política muito mais complexa do que pensa a vã filosofia reacionária do presidente brasileiro. Não se trata de um clone de Cristina Kirchner. Tem dados indícios claros de ser um político equilibrado e com foco, coisas que faltam do lado brasileiro.

Seria muito melhor, mais adequado e mais inteligente que Bolsonaro cuidasse dos assuntos nacionais em vez de meter o bedelho onde não é chamado, intrometendo-se em assuntos que não lhe dizem respeito.

¿Por qué no te callás a tiempo, presidente?

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