Idiossincrasias partidárias à esquerda

PSDB, PT e PSOL giram em círculos, sem definir o que querem como futuro

Marco Aurélio Nogueira

08 Março 2018 | 17h23

Não é fácil entender a lógica das organizações partidárias, sobretudo as de esquerda. Todo partido político tem suas idiossincrasias e suas manias, que muitas vezes os prejudicam. Os de esquerda, porém, levam isso ao paroxismo, talvez porque sejam os que vivem com maior intensidade e dedicação o problema da organização.

Além da facilidade com que as correntes internas brigam entre si, invariavelmente ao ponto da ruptura, os partidos parecem não se importar em queimar seus cartuchos. Fazem um esforço danado para girar em círculos e retroceder, aprisionados a doutrinas enrijecidas ou à dificuldade de fazer escolhas que lhes deem oxigênio e perspectiva de futuro.

Veja-se o PSDB. Teve tudo para ser o grande referencial da socialdemocracia brasileira: quadros, ideias, força eleitoral. Faltaram-lhe os sindicatos e o partido pouco fez para deles se aproximar. Foi-se segurando nas vitórias eleitorais, encastelou-se em São Paulo e deixou de se dedicar ao próprio revigoramento como partido. Fechou os olhos para as oportunidades que se abriram e pouco fez para disseminar sua doutrina pela sociedade. Hoje é uma sombra do que já foi.

Outro caso emblemático é o PT. Amarrou-se de tal forma a Lula, e com tal fervor, que se dispõe a encarar uma terrível desconstrução para salvar a pele do líder. Em vez de avançar como um partido laico e soberano, tornou-se um apêndice do lulismo. Mesmo os que resistem a essa entrega suicida não conseguem escapar dela, e terminam por legitimá-la: para eles, salvar Lula é um postulado ético decorrente do “golpismo” que afastou a esquerda do poder. Parecem estar convencidos de que Lula é o porto seguro da esquerda. Ao fazerem isso, escamoteiam a conturbada relação do ex-presidente com a própria ideia de esquerda, tratando o fato como coisa secundária. De passo em passo, vão contribuindo para desgastar o partido, justamente eles que dizem querer salvaguardar um patrimônio.

Os dirigentes oficiais, por sua vez, defendem Lula por não terem outra opção e, também, para se protegerem a si próprios: querem ver se é possível pegar carona na popularidade de Lula para eleger uma bancada e não desaparecer. Quanto mais demoram, porém, para por em marcha um plano B, mais riscos correm de não conseguir nada e de terem, no futuro próximo, de explicar aos militantes como conseguiram, em tão pouco tempo, destruir o que parecia ser um rochedo indestrutível.

Um terceiro caso, mais recente e atual, é o PSOL. Sabe-se que organizações de esquerda se fortalecem na medida em que conseguem ter vida interna vigorosa. Construir um partido é mais importante, para elas, do que ganhar uma eleição. O PSOL é um partido ideológico, não eleitoral, e até hoje honrou essa tradição. Disputou eleições para perdê-las, confiando que o retorno organizacional seria valioso. Bem ou mal, foram fixando a legenda no imaginário político do país.

Mas eis que, de repente, o PSOL resolve incorporar o ativista Guilherme Boulos. Não como um militante a mais, mas como candidato a presidente. Seu ingresso foi celebrado com fogos e bumbos, como se representasse a formação de uma aliança que impulsionaria o partido e as esquerdas que ele deseja representar. Com esse status, Boulos atropelou toda a lógica interna do PSOL, espetando uma estaca no coração dos militantes (como Plinio de Arruda Sampaio Jr. e Nildo Ouriques) que pretendiam disputar a indicação partidária à Presidência e queriam fazer isso como uma estratégia de construção partidária. De quebra, na festa que recepcionou Boulos, o personagem principal foi Lula, que os psolistas veem com reservas.

O resultado foi, até agora, a conversão do PSOL àquilo que ele sempre negou ser, uma linha auxiliar do lulismo petista.

Com Boulos animando o PSOL, jaz por terra uma ideia de partido e ganha força uma segunda hipótese: a da organização que se deixa dirigir ou por um movimento externo a ele (como o MTST), ou por personalidades maiores do que ele, como Lula.

Um “partido-movimento” poderia assim estar em gestação. Não como opção deliberada, como projeto, mas como obra do acaso: sem virtù, contando só com o concurso da Fortuna. Ao que tudo indica, as coisas vão acontecendo sem discussão interna, sem muita reflexão e com os olhos voltados mais para um discutível sucesso eleitoral do que para a organização de uma força dedicada a ajudar as esquerdas a promover uma articulação de novo tipo entre Estado e sociedade.