Governo quer mudar marcas para chegar ao eleitorado carente

A ideia é atingir eleitor visto como 'cativo' de programas assistenciais. Mas há problemas

Marco Aurélio Nogueira

25 de agosto de 2020 | 16h32

O governo exibe confiança ao divulgar seus planos sociais, inscritos em três programas básicos: Renda Família, Carteira Verde Amarela, Minha Casa Verde Amarela. A convicção é que eles impulsionarão a retomada do crescimento, via monetização da assistência e da criação de empregos.

Trata-se de uma tentativa de mudança de marca. Com nomes diferentes, os programas já existem, e o governo não deixou claro quais serão as alterações com que pretende turbiná-los ou aperfeiçoá-los. É também – e sobretudo – um esforço para politizar a relação do governo com a população mais dependente de assistência, com os olhos claramente postos nas eleições de 2022.

Pode ser que tudo funcione em termos econômicos e sociais. Mas a confiança é desmedida e precoce. Por mais méritos que os programas possam ter, eles poderão esbarrar em alguns acidentes de percurso e, com isso, não serem formatados conforme a cartilha governamental.

Antes de tudo, será preciso definir de onde virão os recursos, problema sempre complicado.

Depois, as propostas terão de passar pelo Congresso, onde receberão modificações importantes. Como disse a deputada Tabata Amaral (PDT-SP), “não haverá adesão” aos programas: “Tenho uma preocupação muito grande de que a criação de um projeto de renda básica não signifique nenhuma perda de direito para a população”. Vindas com as digitais de Paulo Guedes, é de se prever que as propostas sejam problemáticas.

Além da conhecida falta de visão social, o ministro da Economia não tem qualidade para atuar como negociador. É um criador de problemas, se não mesmo o próprio problema. Sugere fechar a Farmácia Popular, eliminar deduções do Imposto de Renda, criar novos impostos ou tributos. Fala muito, mas executa pouco.

O governo trata como assentado que a população mais carente está à disposição dos governantes de plantão. Esse tem sido um caminho trilhado por governos anteriores. A “ocupação” político-eleitoral feita pelo PT no Nordeste, por exemplo, não evitou o impeachment de Dilma, nem garantiu sobrevida sólida ao petismo. No caso de Bolsonaro, pode ser ainda mais complicado, levando-se em conta que ele não dispõe de estrutura partidária e se move sobretudo nas redes sociais, que nem sempre são acessíveis à população de menor renda.

O governo parece disposto a disputar o eleitorado nordestino, que pode de fato estar novamente disponível depois da crise do PT. Mas não há como descartar que o cálculo precisa ser feito e refeito sempre, em parte porque o eleitorado pode não ser tão “cativo” quanto se imagina, e em parte porque os estados do Nordeste são, na maioria, governados por partidos que se opõem a Bolsonaro.

As propostas anunciadas pelo ministério da Economia repõem o conflito entre o fiscalismo de Paulo Guedes e o desenvolvimentismo (bandeira ora desfraldada por Rogério Marinho, ministro do Desenvolvimento Regional, que saiu do PSDB e migrou de mala e cuia para o governo Bolsonaro).  O Estado está mal das pernas, a tentação de cortar gastos é enorme e a tesoura do ministro é particularmente insensível à situação social. O bolsonarismo, e em especial o presidente, não tem um programa claro nem uma “teoria” sobre o País que deseja governar.

Precisamente por isso, Bolsonaro busca se equilibrar em duas canoas, dando sinais contraditórios e sem saber qual estrada adotará para chegar a 2022. Não é propriamente uma demonstração de força.

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