Governo pode não conseguir ser bom e mesmo assim sobreviver

Marco Aurélio Nogueira

28 de janeiro de 2015 | 13h03

O problema não é um governo de esquerda adotar medidas recessivas, “de direita”. Isso é parte da vida política. O problema aparece quando este governo não consegue explicar direito porque está fazendo isso e o que pretende obter ao fazê-lo. Agiganta-se quando o governo não se preocupa nem em organizar bases sociais para apoiá-lo — acreditando que basta ter bases e coalizões no parlamento para que tudo fique bem –, nem em mostrar como suas medidas econômicas “impopulares” deixarão de afetar as demais políticas governamentais.

Falta muita coisa no governo Dilma, mas o que mais falta é comunicação, articulação social e discurso político (projeto). Para um partido de esquerda, que se pretende reformador e procura dar o melhor de si para viabilizar o governo, isso significa que falta o coração: o corpo (do partido, do governo) pulsa por inércia, sem ter sangue sendo bombeado para o cérebro. E pior, vendo suas orientações e suas realizações não serem assimiladas ou compreendidas, terminando por serem sobrepassadas pela abordagem oposicionista e pela análise independente dos não-alinhados.

Na reunião ministerial que realizou ontem na Granja do Torto, em Brasilia, Dilma cobrou mais e melhor comunicação dos ministros com a opinião pública. Foi direta ao ponto. Mas não deu sinais de como fará a sua parte. Um governo não é uma algazarra de falas ministeriais: é uma entidade que depende de coordenação e protagonismo de um chefe, de um líder, e se isso falta suas pernas bambeiam. Pouco adiantará se o chefe atuar como “controlador geral” de seus ministros, castigando-os quando errarem o tom. Um chefe de governo não é um vigilante de ministros, um bedel dedicado a ver que não está fazendo a lição de casa e precisa ser punido. Se for muito chefe e pouco líder, o fracasso baterá à porta.

Não se trata de imaginar ou vaticinar uma situação em que o governo Dilma “cairá”, encurralado pelo furor popular ou pela força das oposições. Nada disso existe no país. Governos ruins não estão condenados a “cair” e podem se estender no tempo, imunes à sua própria ruindade. Podem ter ótimas intenções mas não conseguir ser bons, e mesmo assim sobreviverem. Podem ser ruins e politicamente fortes, desde que se tenha uma situação em que seja grande a força das instituições, em que nenhum outro ator seja mais forte do que ele ou em que o governo seja em algum medida pouco necessário: uma situação em que os fatos trabalhem por si próprios, sem interferência de sujeitos — processos cegos, sem projetos. Neste caso, o governo permanecerá, mas nada de virtuoso produzirá. Se a Fortuna assim o permitir, sequer a comunidade será particularmente prejudicada, ainda que não venha a ser beneficiada. Passado um tempo, ninguém mais dele se lembrará.

Do que se trata é de se ter ou não se ter um governo que seja capaz de se autocriticar, de traçar um plano de voo, de fazer com que as coisas aconteçam e o país melhore, de produzir compreensão social de seus passos e gestos, articulando-se a partir da sociedade, de suas forças e dinâmicas, e não somente a partir de partidos, manobras políticas e jogos institucionais.

Isso é o que decide. O resto ajuda, mas não é indispensável.

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