Governo aceita chantagem de Cunha e arrasta PT para o fundo do poço

Marco Aurélio Nogueira

02 de dezembro de 2015 | 11h29

Foi um espetáculo de escárnio, cinismo e tergiversação. Comportando-se como uma tropa de choque disposta a vencer pelo cansaço, os deputados pró-Cunha no Conselho de Ética paralisaram a reunião realizada ontem, fazendo com que ela transcorresse  como um jogo de cartas marcadas. Martelaram à exaustão a ideia de que Cunha não mentiu, só deixou de esclarecer e explicar. Agiu de boa fé e suas omissões não foram intencionais. Esgrimiu-se o regimento como se fosse um florete mortal. Tentou-se o impossível para que não chegasse a lugar nenhum, envergonhando o Congresso Nacional como local de debate democrático.

Certamente não entrarão para a história as presenças e intervenções dos deputados Paulinho da Força, Wellington Roberto, Hugo Motta, Sérgio Morais e outros que lá compareceram para marcar posição em favor de Cunha. Eles foram o retrato bem acabado da inexpressividade política. Assumiram consciente e plenamente a condição de suspeitos de falcatruas, num verdadeiro abraço público de afogados,

Mas a conduta do governo entrará para a história. É difícil compreender como, em tão pouco tempo, um núcleo político integrado por gente calejada consiga cometer tantos erros, dar tantos passos em falso. Com uma estratégia que flutua entre o suicídio e a esperteza, o governo topou participar daquele abraço. Aceitando o jogo de Cunha — me ajude lá que eu te ajudo aqui –, os operadores do Palácio do Planalto estão a cometer duas loucuras políticas. Por um lado, constrangem os três deputados petistas no Conselho, fazendo com que tenham de posar para o público como aliados do presidente da Câmara, quando não como coniventes com ele. Por outro lado, arrastam o PT para a lama, forçando o partido (sua direção) a manobras desesperadas para limpar a foto perante a opinião pública.

Se Rui Falcão precisa falar em alto e bom som contra as orientações do Planalto, dizendo que o partido é favorável à punição de Cunha — que “confia que seus deputados votem pela admissibilidade”, como escreveu nas redes sociais –, é porque não há mais clareza a respeito de nada, ou seja, fica evidente que o PT está oscilando, vacilando, sem saber bem que rumo tomar. Hoje, é uma nau à deriva, disposta a largar no lixo a bela história que tão duramente construiu.

O recado do ministro Berzoini foi claro: “se fosse presidente do PT, jamais orientaria uma posição e deixaria que cada um votasse de acordo com sua consciência”. Dirão os governistas: sejamos realistas, companheiros, não podemos vencer todas as batalhas, temos de escolher o mal menor. Sempre haverá argumento para justificar o que quer que se queira. Até para que se diga que não há acordo com Cunha quando todo o cenário de operações, todas as falas e posturas demonstram o contrário. O núcleo político do governo é intimorato: não teme o lugar que lhe está a ser destinado na história. Com isso, consegue o que parecia improvável tempos atrás: fazer de Dilma uma governante amedrontada, encolhida num canto obscuro, incapaz de dizer algo que interesse ao povo e explique a crise que desmonta seu governo.

A chantagem de Cunha está funcionando e o Palácio do Planalto é hoje conduzido por ela. Não tem mais vontade própria, somente desejo de sobrevivência. Um zumbi. Seu projeto de poder é chegar a 2018, rezando para que, no espaço de tempo que lhe resta, Lula consiga a mágica de renascer e se fortaleça novamente.

A legitimidade obtida nas urnas de 2014 é agora mera formalidade sem nervo e sem substância.

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