Garoto propaganda

Tudo indica que o presidente seguirá com suas convicções irracionais e anticientíficas, no centro das quais está sua droga preferida, a hidroxicloroquina

Marco Aurélio Nogueira

08 de julho de 2020 | 11h43

Depois que Jair Bolsonaro testou positivo para o coronavírus, as redes se dividiram. Houve quem fez votos de “força corona” e até quem desejou a morte do presidente. Ao lado das protocolares declarações de solidariedade e rápida recuperação, muitos afirmaram que tudo não passaria de “encenação” e que a contaminação, na verdade, já teria ocorrido em fevereiro, tendo sido devidamente escondido.

Teorias conspiratórias à parte, o melhor é ficar com os dados disponíveis. O presidente se infectou graças à própria imprudência, ao negacionismo contumaz, à irresponsabilidade cívica. Pode ter arrastado consigo outras tantas pessoas, ao longo de sua trajetória de abraços, apertos de mão, festas, aglomerações, fotos com seguidores, manifestações, tudo sem máscara ou precaução.

Pode-se  especular livremente sobre se há ou não um cálculo na conduta presidencial que se cola à infecção. Como estamos falando de política, cálculo sempre há, assim como perdas e ganhos, riscos e possibilidades.

O vírus chegou ao presidente no pior momento de seu governo e de sua imagem pessoal. Cercado pela Justiça, com os filhos ameaçados, sem um programa de atuação, com um ministério sofrível e desaparelhado, ministros atarantados, surtados e atacados pela insanidade ideológica, Bolsonaro optou por virar o disco e posar de “bonzinho”. Baixou o tom, tentando ser o estadista que não consegue ser.

A contaminação viral precisa ser encaixada nesse contexto. Não que o presidente tenha se “auto-infectado” ou esteja mentindo. Seria preciso uma operação árdua e intrincada, com o comprometimento de médicos, técnicos laboratoriais, o Hospital das Forças Armadas, para coonestar uma armação do tipo.

Mas é evidente que Bolsonaro tentará usar a doença a seu favor, reforçando a narrativa que segue desde o início, a da “gripezinha”, que só atingiria os mais frágeis e poderia ser combatida facilmente. Suas convicções irracionais e anticientíficas serão reforçadas, para propagandear seu físico privilegiado (?) e sua droga preferida, a hidroxicloroquina. O negacionismo seguirá em frente, firme.

Ao repercutir o fato, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta foi ao ponto: “O presidente criou uma narrativa própria desde o início e repetiu tantas vezes que passou a acreditar nela. Quem o assessora deve ser gente sem o hábito de leitura científica ou que usa informação sem filtro da internet”.

Com o teste positivo feito, o presidente foi às redes dizer que está “perfeitamente bem” depois de três doses de cloroquina, a última cápsula ingerida em público, efeito dramático manjado. “Eu confio no remédio. E você?”, desafiou. Disse não estar sofrendo com os sintomas mais graves porque fez uso precoce da droga. “Com toda certeza, está dando certo”.

Macho que é macho é assim: se desmoraliza, mas não dá o braço a torcer.

O presidente ainda se deu ao trabalho de aconselhar os jovens, que devem ficar tranquilos porque nada sofrerão. Como não está nem aí para a ciência ou a inteligência, acha que ser infectado é como chuva, todo mundo um dia vai se molhar. Em nenhum momento desta fileira de cretinices ele lembrou que pode ter infectado um montão de gente nas suas andanças e festinhas.

Como observou o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), “até doente Bolsonaro sabota o combate da pandemia”. Há 70 mil mortos, mais de 1,6 milhões de infectados e o presidente segue impávido em sua carreira criminosa.

Digamos assim: caso ele esteja a usar a infecção para propagandear pela enésima vez a cloroquina, o preço será alto: o ridículo da situação conspira contra a manobra. E será alto, também, se estiver falando a verdade, como atestam médicos e laboratórios que o atenderam. Afinal, para quem dizia que a doença não era mais que uma gripezinha, cair de cama ou ficar fora de circulação é uma terrível dor de cabeça.

Em suma, se encenar demais o bicho pega, se a cloroquina for uma farsa o bicho come.

Nisso, lá se vai uma fatia importante da imagem do “mito” que se queria atleta inexpugnável.

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