Fidel para todos os gostos

Marco Aurélio Nogueira

28 de novembro de 2016 | 13h07

Foi uma morte anunciada. Não porque o personagem tinha 90 anos e já mostrava sinais claros de falência. Mas porque dele se disse o que todos podiam imaginar. Fidel um ditador, Fidel o salvador de Cuba, um herói das esquerdas, político que durante décadas seguidas preencheu o imaginário revolucionário do mundo e angariou tantas simpatias fanáticas e religiosas quanto ódio visceral e desprezo.

Amado à esquerda e odiado à direita, Fidel saiu da vida para entrar no universo de intolerância e simplificação que tipifica o momento em que se vive.

Os que tentaram encaixar o personagem na História, vê-lo em suas circunstâncias e sugerir que deveria ser analisado também como uma pessoa, com seu lado sapiens e seu lado demens, como cheguei a escrever, passaram a ser vistos como cegos que nada mais fariam do que revelar o estado de putrefação moral em que se encontraria a esquerda democrática no Brasil. Aconteceu isso com Fernando Henrique Cardoso, autor de um belo texto sobre o líder cubano, com o senador Cristovam Buarque, com os professores Bresser-Pereira e Renato Janine Ribeiro — todos enfiados numa gaveta onde repousam os incapazes de ver a face tirânica de Fidel, os apoiadores ingênuos da ideia de que poderiam existir ditadores bonzinhos.

Eduardo Wolf, blogueiro do Estadão, pulou na jugular desses incapazes, incluindo-me com destaque entre eles. Escreveu em seu blog que aqueles que tentaram analisar Fidel com um pouco mais de complexidade mostraram ser tão-somente “lideranças políticas e intelectuais das quais se esperava uma atitude mais sóbria e digna à esquerda”. Não se sabe bem o que ele quis dizer com isso, na medida em que seu texto se dedica exclusivamente a atacar pessoas de quem discorda, que ele vê como autores de “declarações que vão de infelizes a francamente imorais”. Na sua formulação, não teria havido uma única voz na chamada “esquerda democrática” que expressasse “sem tergiversar a recusa firme e inequívoca do legado de Castro: um estado de terror persecutório que silenciou, prendeu, torturou e matou milhares de cidadãos cubanos culpados do terrível crime de pensar diferente”.

Wolf acha mais correto e engraçado ficar com Trump — para quem Fidel “foi um ditador brutal que oprimiu seu povo” — do que com Obama, para quem a “História julgará o impacto dessa figura singular”. Para ele, vale mais a adjetivação gratuita do que a modéstia e a ponderação do intelectual.

Quer cumprir o papel de senhor da razão. Apresenta-se como integrante daquele conjunto de pessoas que se importam “com uma democracia vibrante, plural, com variadas perspectivas políticas”. A partir desta condição, se dá o direito de exigir que os que pensam de outro modo se submetam obedientemente ao que considera ser uma razão superior. Mistura alhos com bugalhos no afã de vender sua mercadoria e se apresentar como paladino da “verdadeira democracia”. Sua missão na Terra é alertar os leitores de que quem não critica o totalitarismo é, por assim dizer, um totalitário inconsciente.

Para sustentar sua tese, o blogueiro emprega expedientes de tergiversação explícita, frases soltas, casuísmos e ofensas explícitas (fala em “bobagens, argumentos espantosos e estapafúrdios, delírios”), com os quais imagina mostrar firmeza e intransigência. A partir daí, organiza um tribunal de caça aos que silenciaram: “onde estavam as vozes desta esquerda reinventada e não-totalitária, agora que uma clara recusa dos caminhos violentos do castrismo se fazia atual, justificada e necessária?”.

A intolerância de Eduardo Wolf, sua pressa em estigmatizar pessoas que bem ou mal sempre se empenharam em criticar estigmas e simplificações grosseiras, é a melhor prova da gratuidade de sua acusação. Ele quer saber se é possível esperar algo “de uma esquerda de matriz intelectual marxista que seja verdadeiramente comprometida com a democracia, com os direitos humanos e com as liberdades individuais”. Acredita que não, mas não diz porque. O máximo que consegue é citar, com evidente oportunismo retórico, Tony Judt e Hobsbawm, para dizer que a esquerda democrática brasileira morreu, ou jamais existiu.

Fidel morreu e é preciso que haja um esforço para situar o personagem em suas circunstâncias. Sem isso, não se virará a página. Foi um ditador, e deve ser assim visto. Não há porque se fazer disso um cavalo de batalha. Mas foi também um dirigente político e um hábil construtor de mitos, um encantador de serpentes, um personagem que de algum modo fez com que a América Latina se dividisse entre um antes e um depois. Reduzi-lo à figura do tirano sanguinário pode servir para que se façam provocações, mas não ajuda a que se compreendam a figura do líder cubano e os problemas da esquerda, de ontem e de hoje.

Ao se converter Fidel em plataforma para a crítica e o repúdio à esquerda democrática, Wolf nada mais se faz do que manter viva a imagem do ditador, jogando no lixo a análise política e a consideração substantiva do papel dos homens na História. Mata o pensamento crítico e agride a filosofia da história, em benefício exclusivo da reprodução de um conjunto de preconceitos e da verbalização do desejo inconfesso de que necessitamos de bichos-papões para assim aplacar nosso medo à escuridão.

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