Falta de um projeto de sociedade ajuda a explicar diálogos exasperados

Marco Aurélio Nogueira

10 de novembro de 2014 | 10h42

No último texto que publiquei aqui, semana passada, me associei à ideia de que, nos últimos tempos, uma onda de agressividade verbal, intolerância e sectarismo invadiu as diferentes praias da sociedade. Tornou-se visível nas redes, mas não somente nelas. As pessoas parecem cada vez mais sem paciência para suportar os que não pensam como elas e estão menos dispostas a guardar para si as taras e pulsões que deveriam, no máximo, ser exibidas no recôndito da vida privada. Põem tudo para fora, sem pudor e sem medo de repreensão. Acham mesmo que quanto mais firmes na contestação do outro, mais estariam a cumprir um papel de relevo.

Penso que há algumas boas hipóteses que podem nos auxiliar a compreender isto e até mesmo a verificar se há mesmo alguma mudança digna de registro. Sem preocupação em estabelecer o que tem maior poder de determinação e de explicação, refiro-me ao seguinte.

(1)A sociedade brasileira é estruturalmente tensa e desigual. Há nela um subterrâneo repleto de violência e discriminação, bem como de intolerância e arrogância. Nosso desenvolvimento recente não suavizou nem amenizou isso. Ficamos mais modernos, quem sabe “pós-modernos”, sem termos nos tornado mais educados, adquirido um pensamento mais democrático ou uma estrutura social mais justa. Quando as consciências e as ideologias são convidadas a se posicionar, a tomar partido (por exemplo, numa disputa eleitoral), irrompem na cena pública em estado bruto, sem as devidas mediações. Tornam-se condutores de exasperações surpreendentes.

(2)Some-se a isso o fato de que os brasileiros se ressentem da ausência de um projeto de sociedade vivido como cultura e injetado na corrente sanguínea da cidadania. Sem este entendimento comum do que seja viver juntos e “para onde ir”, os cidadãos ficam sem parâmetros, tendo de se orientar exclusivamente pelos comandos que partem das estruturas primárias da sociedade, das famílias, das escolas, das igrejas, dos bairros. Se estas estruturas falham, ou não funcionam bem, como vem ocorrendo nesta nossa época de mudança acelerada e de “sofrimento organizacional”, pode-se imaginar o que vem na sequencia.

(3)Uma terceira camada decorre, portanto, do Estado, da política, ou seja, daquelas instâncias e atividades que se responsabilizam pela organização da comunidade política. A intelectualidade também deve ser mencionada aqui, pois desempenha funções importantes. A má qualidade do debate político e a pobreza da linguagem da política influem negativamente, ajudando a que se tenha uma cidadania mais mal educada em termos cívicos. Se as pessoas veem seus líderes, seus representantes, seus governantes e seus candidatos pisoteando tudo, ofendendo-se reciprocamente e valendo-se de todo tipo de truques e baixarias, por que não se sentiriam à vontade para copiá-los? Se os intelectuais não se preocupam em ser didáticos, em fundamentar suas elucubrações e lapidar seus textos e falas, se brincam irresponsavelmente com palavras e conceitos, se agem como se estivessem aquém ou além da razão, o que podem de fato sugerir às pessoas?

(4)Deste ponto de vista, o desserviço prestado pelos candidatos presidenciais nestas eleições foi enorme. Particularmente a campanha de Dilma Rousseff – que disputava a eleição como Presidente da República e devia se submeter, portanto, a alguma liturgia, além de se apresentar como representante de um partido de esquerda, ao qual normalmente se associam valores democráticos e éticos positivos – adotou estilo tão violento e agressivo que foi interpretada como se estivesse querendo não se contrapor a seus adversários (Marina Silva e Aécio Neves), mas sim esmagá-los, destruí-los, desmoralizá-los. Foi uma estratégia de marketing político, é verdade, mas a dose do remédio foi tão mal calibrada que deixou sequelas graves na sociedade. A Dilma “coração valente”, a guerrilheira que jamais se dobrou ou cedeu pode ilustrar bem uma narrativa épica, mas não se coaduna com a figura de um estadista.

(5)As redes entraram repentinamente na vida dos brasileiros e não impuseram a eles uma cultura e uma base de procedimentos a partir da qual interagir on-line. Não foram educativas e não encontraram nenhum código de “boas maneiras” para sugerir às pessoas. Foi como a erupção de um vulcão que pegou todo mundo de surpresa. Comunicar algo, nas redes, é fácil, basta apertar um botão e valer-se, em maior ou menor medida, de sons, fotos, filmes que sejam evocativos e que “provem” a sua denúncia. Nas redes, as pessoas simplesmente estão soltando seus demônios. Sem freios e sem limites. A má escolaridade se combina com a baixa educação cívica, com a rusticidade intelectual e com a não incorporação de uma cultura superior pelos internautas. Estamos pendurados numa plataforma tecnológica sem termos um estoque adequado de procedimentos ou um código de conduta.

Nada disso quer dizer que estamos imersos numa sangrenta guerra de todos contra todos. Mas sim que a complexidade aumentou e que não basta mais a gente fingir que está tudo como dantes no quartel de Abrantes. Precisamos melhorar os argumentos e exigir que o Estado, os partidos, os políticos e os intelectuais façam sua parte.

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