Exposição e livro sobre Artigas mostram que conservadorismo não domina o País

Exposição e livro sobre Artigas mostram que conservadorismo não domina o País

Marco Aurélio Nogueira

02 de julho de 2015 | 12h17

Os que acreditam, de forma mais apressada ou menos, que vivemos no Brasil uma expansiva “onda conservadora” em termos políticos e morais certamente ficariam surpreendidos se estivessem ontem à noite no Itaú Cultural da Av. Paulista, em São Paulo.

O local está sediando, desde a semana passada, uma ampla e bela exposição sobre o arquiteto Vilanova Artigas, um dos mais importantes do País. Como parte das comemorações do centenário de nascimento do arquiteto (que faleceu em 1985), a exposição procura apresentar a evolução de sua obra e de seus projetos marcantes, que redefiniram a arquitetura paulista e brasileira.

Ontem à noite, foi lançado um novo livro sobre Artigas. Livro belíssimo, por sinal, editado pela Terceiro Nome. Com autoria de Rosa Artigas e coautoria de Marco Artigas, respectivamente filha e neto do arquiteto, o livro Vilanova Artigas reúne 43 de seus projetos, incluindo alguns dos não executados, como por exemplo os feitos para o concurso do Plano Piloto de Brasília e a proposta de reurbanização do Vale de Anhangabaú. A partir de fotografias atuais e antigas, além de desenhos originais feitos pela mão do próprio arquiteto, a obra reconstrói o percurso de João Batista Vilanova Artigas.

livro ARtigas 2

O lançamento foi precedido de uma palestra de Paulo Mendes da Rocha, outro dos nossos eméritos arquitetos.

Pois bem. O que não se esperava é que uma multidão impressionante afluísse ao evento. Estive lá. Foram centenas, talvez milhares, de pessoas que povoaram a região da Paulista, formando filas que davam a volta no quarteirão. Poucos puderam assistir à palestra, pois o auditório comportava somente 200 lugares. Muitos esperaram pacientemente para comprar o livro e obter o autógrafo.

Não se tratava da apresentação de um pop-star. Artigas estaria muito longe disto. Não havia distribuição de brindes, nem chamamentos bombásticos de caráter lúdico ou espetacular. O convite era para que se fizesse uma reflexão sobre a obra de um arquiteto que foi também um intelectual crítico, um militante comunista, um artista inconformista e combativo. O evento conclamava as pessoas a conhecerem uma obra e uma trajetória abertamente construídas na contramão do sistema e da vida atual.

Nada portanto menos “conservador”.

A multidão que ali compareceu era majoritariamente de jovens, bem jovens. Moviam-se por certo pela curiosidade cultural, pela vontade de conhecer alguém de quem ouvem falar, que estudam, cujas obras frequentam e admiram. Queriam, de certa forma, se apropriar de um “mito” e se solidarizar, ainda que não declaradamente, com uma trajetória de vida sustentada pela criatividade e pela contestação, pela busca do novo e do socialmente justo, pela adesão e o respeito à democracia política. Desejavam, também, ouvir Paulo Mendes da Rocha, outro gigante de nossa intelectualidade.

Foi um evento único. Mostrou que, se conservadores existem em número não desprezível no Brasil, eles certamente não formam a maioria da população, ou da opinião pública, ou da juventude. Em suma, que existe muito espaço para o desenvolvimento de atividades e iniciativas que deem sentido e densidade à vida que se leva, que ajudem a que cada um de nós compreenda melhor as tendências estruturais e os longos prazos, calibre posicionamentos e insatisfações, recuperando os fios que nos ligam à História e nos ajudam a seguir em frente. Fazendo coisas, marcando presença, refletindo, construindo comunidades.

Tá certo, em Brasília aprovaram a redução da maioridade penal, numa operação estranha e barra-pesada. Mas esta não parece ser a tendência dominante. A noite de ontem, em São Paulo, mostrou que a vida é bem mais plural e democrática.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.