Estudantes fazem boa política e derrotam Alckmin em São Paulo

Marco Aurélio Nogueira

05 de dezembro de 2015 | 12h16

Agiu bem o secretário de Educação de São Paulo, Herman Voorwald, ao pedir demissão do cargo ontem, sexta-feira 5/12, logo após o governador Geraldo Alckmin ter sustado o projeto de reorganização do ensino e fechamento de escolas no estado.

Herman estava desde 2011 no cargo. Certamente sentiu na pele a falta de apoio à sua gestão e percebeu a decomposição de um governo que, há um ano, foi eleito com o apoio de 60% dos paulistas. Agora, o prestígio de Alckmin caiu para menos de 30%.

O declínio acentuado não se deveu exclusivamente ao projeto educacional, ainda que este tenha jogado papel determinante. Têm sido muitos os problemas não adequadamente enfrentados em São Paulo. O governo como um todo deixou de fazer política e perdeu capacidade de comunicação social, em parte porque se jactou de sua força e deitou sobre os louros conquistados, em parte porque se deixou contaminar pela dinâmica política nacional e pela polarização incansável entre PT e PSDB.

Prova disso é que, ao longo das semanas em que durou a curta vida do projeto de reorganização do ensino, toda a reação a ele – nas redes sociais sobretudo, mas também na mídia, nas escolas e universidades, nas tribunas parlamentares – explorou o contraste entre o que ocorre em Brasília (digamos, para simplificar, o binômio corrupção-irresponsabilidade) e o que se passa em São Paulo, ou seja, o binômio tecnocracia-violência de Estado. Com isso, não se ganhou nada nem em termos de compreensão do quadro mais geral, nem em termos de discussão de políticas públicas, mas o governador e seu partido perderam pontos preciosos. Entregaram na bandeja um saboroso menu para a militância petista e para todos os que se opõem aos tucanos.

A partir de agora, a imagem de Alckmin estará associada aos fatos que ocorreram de setembro para cá, turbinados pela incapacidade de mostrar o mérito de um projeto tido como estratégico para a melhoria do ensino, pela tentativa de impor uma reforma educacional sem a devida discussão e, sobretudo, pela violência da repressão policial, protagonista de cenas de truculência explícita, abuso de autoridade e inabilidade.

Os jovens estudantes mostraram a força que pode ter um movimento quando está do lado da razão e de uma boa causa. Conseguiram sensibilizar e esclarecer a sociedade de que a reforma projetada era arbitrária, tecnicamente inconsistente e orientada por critérios de ordem financeira, não pedagógica. Sua mobilização foi marcante e deixará rastros positivos na memória da educação paulista, devendo reverberar em outros estados. De personagens tidos e havidos como “desinteressados” da escola, passaram a atuar em nome da defesa e da valorização da escola. Melhor causa, impossível. Fizeram política – e foram disputados e usados politicamente, como é inevitável – e encurralaram um governo que não fez política e abusou da arrogância e da violência.

Os fatos de São Paulo contribuíram para “empatar” uma partida que parecia reclusa em Brasília. Agora, para os ativistas e mesmo para o senso comum, a fórmula PT/corrupção/irresponsabilidade será contestada pela fórmula PSDB/violência. Ambos os partidos caminharão abraçados como versões específicas de desgoverno, ou de governos que operam como algozes de direitos e políticas sociais importantes. Em contrapartida, o “golpismo” que se associou ao impeachment de Dilma ficou compensado pelo “golpismo” associado ao “fora Alckmin”. Dois empates emblemáticos, portanto.

O processo do impeachment, que já tem suas dificuldades básicas de argumentação, justificativa e sustentação, caminhará tendo a seu lado, de forma inevitável, a sombra de uma governabilidade tucana que não soube honrar seus compromissos democráticos. Uma coisa a rigor nada tem a ver com a outra, mas será difícil separá-las.

Resta, agora, ver como seguirá o jogo e entender o rumo que tomará o governo Alckmin para tentar se recuperar do fenomenal erro que cometeu no maior estado da federação. O primeiro passo ele já deu. Pressionado e alertado pelas ruas, recuou de uma medida que se mostrou equivocada, deixando aberta a porta para que seu governo passe a praticar um diálogo que não existiu até agora.

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