Esqueletos no armário

Esqueletos no armário

Em São Paulo, Covas e Boulos são candidatos bem diferentes entre si, como personalidades, estilos e ideologias.

Marco Aurélio Nogueira

17 de novembro de 2020 | 11h43

Torcidas e militâncias à parte, o segundo turno em São Paulo promete bastante. Além de emoção, fornecerá um cenário transparente da dinâmica política que parece ter sido desencadeada pelas urnas de 2020.

Chegaram a ele dois candidatos bem diferentes entre si, como personalidades, estilos e ideologias. Se olharmos com atenção, veremos que ambos acumulam vantagens e desvantagens que podem decidir o voto do eleitor.

Comecemos pelo mais simples e evidente. Boulos é explosivo e exuberante, Covas é contido e discreto. A ponderação é uma marca de Covas e ele tem insistido bastante na experiência. Já Boulos faz da indignação o seu traço dominante e reforça bastante a ideia de novidade.

Covas atrai o voto dos mais velhos, menos dispostos a experimentos e mais leais a realizações. Boulos é o candidato dos jovens, sempre mais engajados, e dos que desconfiam dos políticos, embora seja ele próprio um político full time.

Enquanto Covas fala em gestão e continuidade, Boulos explora a contestação e a ruptura. O atual prefeito é mais agregador e se sente à vontade ao enfatizar a negociação e a busca de coesão como estratégia. Seu adversário agrega menos e não demonstra dificuldade em opor “nós” a “eles”. Covas é mais política, Boulos é mais identidade.

Covas é um social-democrata de raiz, esforça-se para resgatar as melhores bandeiras do PSDB. O socialismo de Boulos não tem uma “pátria partidária” muito clara, expressa uma ideologia impregnada de muitas versões, que ele utiliza sem muito critério. É um estado de espírito em busca de um corpo. Seu partido rompeu com o PT, ainda que sem ter jamais dele se afastado. Covas é um quadro orgânico do PSDB, Boulos é um neófito no PSOL, não um dirigente.

Ambos têm esqueletos no armário, que precisam esconder.

O problema de Covas passa por João Dória, muito rejeitado na capital. Também precisa explicar a escolha de seu vice-prefeito, um vereador malvisto pelos progressistas e com um currículo complicado. Terá de encontrar um jeito de administrar as duas situações.

O problema de Boulos passa por Lula e pelo petismo, que irão apoiá-lo de modo ostensivo. Terá de aceitar a adesão, mas impedir que ela excite a extrema-direita e traga de volta o antipetismo de outras eleições. Já recebeu o apoio de Ciro Gomes e do PDT, e luta para conseguir o do PSB. Mas Marcio França é um político pragmático, não há como saber o que fará de fato.

Ambos poderão se beneficiar do maior ou menor engajamento dos vereadores eleitos, cujas máquinas ainda estão aquecidas. O PSDB saiu das urnas com 8 vereadores eleitos. Somando os 6 eleitos pelo PSOL aos 8 do PT, Boulos poderá contar com o trabalho de 14 vereadores. Mas os 8 de Covas precisam ser avaliados no quadro das composições habituais na política municipal.

Não será uma disputa entre direita e esquerda, por mais que a tentação de muita gente seja traduzi-la assim. Covas está longe de ser um direitista: é um ativista da centro-esquerda. Boulos está corrigindo seu esquerdismo de ocupações e manifestações veementes De certo modo, tenta infletir para o centro, que é onde está a imensa maioria do eleitorado paulistano.

Cada eleitor combinará com flexibilidade as características e os marcadores de Boulos e Covas, para desse modo votar conforme suas preferências e expectativas.

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