Entre o ajuste e a governabilidade, PT joga suas cartas mas o País permanece parado no ar

Marco Aurélio Nogueira

01 Novembro 2015 | 11h05

Pode-se falar o que for sobre ou contra Lula, mas ninguém poderá negar que o ex-presidente sabe se mexer na política, especialmente quando acuado. A facilidade com que muda de posição só encontra paralelo na capacidade que tem de explicar a mudança como fato “natural” e de seguir em frente com desenvoltura. Seu comando sobre o PT pode não ser incontrastável, mas não há ninguém no partido que possa disputar com ele em termos de influência. Lula controla o partido, que faz basicamente o que ele pensa e quer. Para o bem e para o mal.

O ex-presidente liderou a claque que andou hostilizando Joaquim Levy nos últimos meses. Para ele, o ajuste fiscal capitaneado pelo ministro representava o contrário do que o PT sempre defendeu. Deprimiria o País num momento em que seria preciso impulsioná-lo. No horizonte de Lula estavam as próximas eleições, mas também uma preocupação com os rumos da economia, coisas aliás inteiramente relacionadas entre si. Lula e o mundo sabem que não haverá futuro eleitoral para o PT caso o governo Dilma não consiga aprumar a economia. O ex-presidente, em parte, falava contra o ajuste com um olho grande para o público interno.

Dando outra volta do parafuso, Lula agora pensa que o ajuste é “prioritário”. Na reunião do Diretório Nacional do PT em 29 de outubro de 2015, disse que a “prioridade zero” do partido no Congresso Nacional deve ser a votação do ajuste fiscal “para que o Brasil retome o crescimento”. Se, antes, não poupava críticas a Levy, agora é um seu defensor: “Tem companheiro que fala ‘fora Levy’ com a mesma facilidade com que falávamos ‘fora FMI’. Não é a mesma coisa”.

É provável que Levy ainda persista, na cabeça de Lula, com “prazo de validade vencido” e mais à frente venha a ser substituído por alguém mais próximo e mais “desenvolvimentista”. Mas a guinada atual foi feita com firmeza e transparência. Levy é o ministro que fará o trabalho mais pesado, deixando o caminho desembaraçado. Lula admitiu que houve graves erros de avaliação do governo sobre a situação econômica do país: “Chegamos a uma situação ruim na economia em parte porque a tal da crise econômica internacional foi maior do que a gente calculava. E em parte é porque demos em 2014 muito subsídio e desoneração, arrecadando menos do que a gente gasta”. Agora, ponderou, é preciso virar a página e fazer o País voltar a crescer, ou por meio de uma elevação de impostos ou mediante uma política de crédito agressiva. O decisivo, para Lula, é que governo e PT consigam “despertar sonho e esperança na sociedade brasileira”. Levy servirá ao menos para varrer a sujeira mais grossa.

Lula também passou a admitir que o discurso eleitoral de Dilma foi abandonado logo depois da posse. “Ganhamos uma eleição com um discurso e, depois, tivemos que mudar o nosso discurso e fazer aquilo que a gente dizia que não ia fazer, e isso é um fato”. A então candidata não teria mentido ou enganado o eleitor; apenas não estivera devidamente informada da gravidade da situação.

Foi uma confissão de que se cometeram erros sérios, o que em política nunca é pouco. Um avanço, sem dúvida.

O subtexto das falas indica que se sabia há tempo que havia algo de podre no reino, que a má gestão fazia a economia desandar e o Estado a se tornar inadimplente. Mas dava para ir empurrando com a barriga, de olho nas eleições. Responsabilidade Fiscal? Artifício burguês, não podia atrapalhar a execução dos programas sociais. “Pedaladas” fiscais poderiam ser dadas para pagar o Bolsa Família. O dinheiro acabaria aparecendo. Não se deveria confessar em público que o descontrole estava em curso. Deu neste rombo obsceno de mais de R$ 100 bilhões.

Agora, sirene estalando, é hora de deixar o pragmatismo falar mais alto: “A única condição de a gente voltar a ter o prestígio que o PT já teve é recuperando a economia.”

O Diretório Nacional do PT reiterou o que Lula disse ao discursar na reunião e nas entrevistas que concedeu durante o dia. O documento final defendeu enfaticamente o ex-presidente das “armações” desencadeadas por núcleos da PF, do Ministério Público e do Judiciário. Apoiou a proposta de reintrodução da CPMF e de “outras iniciativas governamentais que buscam reformar progressivamente o sistema de tributação e preservar os programas sociais estabelecidos desde 2003″.

Mas o documento partidário não tem a flexibilidade e o jogo de cintura de Lula. O vocabulário é pesado, repleto de palavras-chave e jargões estrategicamente distribuídos para agradar às várias alas do partido, um pouco para inglês ver. Partidos centralizados costumam ser assim, inevitavelmente. A resolução política sobre a conjuntura aprovada na reunião do Diretório não fugiu à regra. Nela há um pouco de tudo e as teses partidárias são marteladas com insistência, costuradas pela ideia-mestre de que o PT é o alvo principal de uma gigantesca articulação golpista que visa a destrui-lo, bem como a seu legado. Mais: a “ofensiva conservadora” busca “destruir a esquerda e os movimentos sociais, interditando o campo popular como alternativa de poder”. Em suma, o Apocalipse chegando.

Fala-se para dentro, para a militância, mas a culpa é sempre das estrelas, ou seja, dos outros, dos que não se conformam com a ascensão e a força do partido. Jamais se olha para o próprio umbigo.

Segundo o documento, “o país permanece, um ano após a reeleição da presidenta Dilma Rousseff, sob intensa ofensiva conservadora. As forças mais reacionárias, dentro e fora das instituições, ainda que sem coesão ou alternativa que as unifique, se empenham para sabotar e tentar derrotar o governo, se possível levando à sua derrubada através de expedientes golpistas. Mesmo sem que os governos dirigidos pelo PT tenham reunido condições para reformas de caráter estrutural, que alterassem o sistema de produção e apropriação da riqueza, numerosas frações das classes dominantes brasileiras se deslocaram para uma empreitada que busca recuperar o controle do Poder Executivo para as mãos de seus principais agentes políticos, liderados pelo PSDB e os monopólios da mídia”.

A questão é saber porque as classes dominantes se deslocaram para a oposição mesmo sem que o governo tivesse avançado para “reformas estruturais”. Teriam se sentido ameaçadas de algum modo por um governo popular ou simplesmente resolveram “interditar o campo progressista”?

A resolução bate firme em Eduardo Cunha, líder da “ala mais reacionária” do Congresso, por exemplo, mas não se posiciona em favor de seu afastamento, optando por enfatizar que o presidente da Câmara estaria aliado com o “bloco PSDB-DEM-PPS” e “assumiu a liderança de uma agenda para contrarreformas, além de flertar com o impeachment presidencial”. Nada além disso. Outra vitória do pragmatismo.

Lula foi bem mais claro: “O PT precisa decidir se quer governar o Brasil ou expulsar Eduardo Cunha”.

O Diretório Nacional também reiterou que, nas atuais circunstâncias, “o principal objetivo tático é derrotar a escalada golpista, isolar a oposição de direita e recuperar as condições plenas de governabilidade”. Mas não esclareceu o teor do golpe que estaria em curso nem muito menos como agirá para ampliar a governabilidade perdida. Também não ficou claro o que se entende por “direita”. Para avançar neste terreno, teria sido preciso passar a limpo a própria política de alianças seguida pelo partido, submetê-la à crítica, alterá-la ou, como faz Lula, assimilá-la por completo.

Se há instabilidade política na Câmara, se o governo perdeu parte de sua base e vê vários deputados aliados serem orientados por Eduardo Cunha, o PT teria de avaliar se isso se deve tão-somente a uma articulação conservadora ou se também reflete falhas de coordenação política. Estaria o partido, como pregou Lula, sabendo “conviver com os aliados, mesmo com os de perfil conservador”? Afinal, “precisa deles para formar maioria no Congresso e ganhar as eleições”.

Ao longo dos últimos anos, foi assim — atraindo os conservadores — que os governos petistas adquiriram “governabilidade”. Boa parte do que há de corrupção no País passa por aí, mas o PT não toca no assunto. O partido está devendo uma explicação que revele as razões que fizeram com que as coisas saíssem do controle, o prestígio do governo decaísse tanto, os apoios começassem a ficar mais caros e o governo deixasse de governar. Deveria, ainda, mostrar quem ganhou e quem perdeu com as opções feitas, cortando na própria carne se preciso for.

Deveria existir por aí um maior sentido de urgência. Enquanto as movimentações político-partidárias ocorrem, com suas voltas e reviravoltas, o País permanece à deriva, sem compreender para onde irá. Falta uma agenda — uma ideia de Estado e de sociedade — que promova um novo consenso e faça História. Sem isso, continuaremos parados no ar, enroscados nesta lamentável situação atual, que somente produz caos, ruído e desesperança.