Entre as narrativas, um vazio grita para ser preenchido

Entre as narrativas, um vazio grita para ser preenchido

Marco Aurélio Nogueira

12 Agosto 2016 | 18h53

Diz o ditado que sábio é aquele que sabe o momento certo de sair de cena. Assim na vida, assim na política, mas com um adicional: sair de cena não quer dizer sair da luta, mas se reposicionar, reunir as forças que ameaçam dispersar e traçar um novo rumo, para seguir em frente.

Foi, por isso, estranha a postura da bancada petista ampliada no Senado, durante a sessão (9 e 10/8) que converteu Dilma em réu e determinou sua ida a julgamento pelos senadores.

Todos diziam que se tratava de jogo jogado, quem sabe com cartas marcadas, que as chances de uma reviravolta eram mínimas, que a presença do ministro Ricardo Lewandowski na presidência da sessão legitimava o processo. O momento, politicamente delicado, teria de ser aproveitado para que se pudesse descortinar o futuro a partir de uma análise crítica do próprio processo que levou a que o impedimento de Dilma deixasse de ser uma artimanha oposicionista e se convertesse em fato político, com a dureza que costumam ter os fatos políticos.

A bancada petista, porém, optou por requentar a narrativa do “golpe”, levando-a ao extremo. Deu o tom aos demais defensores de Dilma, puxando-os para baixo, como ocorreu com o senador Randolfe Rodrigues, da Rede, que chegou ao ponto de discursar para dizer que a prova do golpe estava na inoperância do governo interino, que depois de 100 dias “não apresentou nada de novo ao país”. A linha de frente – Lindbergh, Gleisi e Vanessa – nem foi a tanto: esgotou seus recursos argumentativos para desancar os “golpistas”. Produziu-se com isso dois efeitos desastrosos: nada acrescentaram à compreensão do processo e aumentaram a irritação dos senadores.

Se os petistas majoritariamente e por dever de ofício ainda se prendem ao “golpe”, alguns deles já estão a perceber que é preciso tocar a vida, normalizar. Quando Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, lembrou que “golpe é uma palavra dura demais”, deixou claro que já se inseriu num campo politicamente mais dinâmico que desponta no polo da “nova oposição” e procura – com ou sem deliberada intenção – atualizar e preencher o vácuo que se abriu na produção discursiva e na conduta prática do PT: a denúncia do “golpe” perdeu valor de mercado simplesmente porque o processo andou em outra direção e cabe agora, a um partido que está vivo e deseja assim continuar, fornecer algo mais a seus seguidores. Para que se possa voltar a fazer política, há que se elaborar uma diretriz que contenha mais que denúncia e indignação, ou seja, que olhe para frente e explique porque o leite derramou e o que deve ser feito para que a jarra volte a encher.

Mas não há flores do outro lado da praça. A narrativa e a conduta governamental também conhecem dissabores, tão graves quanto. Primeiro porque está difícil unificar o bloco: a unidade, hoje, é precária e eminentemente tática, alimentando-se quase que só da necessidade de somar votos para derrotar um adversário comum. Em termos programáticos, nada está sendo oferecido. Em segundo lugar, o bloco governista fala muito do futuro, um ponto distante no qual todos voltarão a ser felizes, mas fala pouco dos caminhos que terão de ser trilhados para que lá se chegue, e quando fala não convence, nem inspira muita confiança. Para o governo, o futuro é uma abstração, tem poucos pontos de contato com o dia-a-dia da população e, para complicar, perde credibilidade ao ser “desconstruído” pelas seguidas concessões práticas que são feitas para manter a base unida.

Entre as narrativas postas na mesa, portanto, há um vazio, que grita para ser preenchido.

Os dois polos que dominam a política nacional chegarão sem muitas modificações ao menos até o início de setembro, quando se imagina que a questão do impedimento estará resolvida. Se, depois, uma reciclagem não vier a ser feita, pouca esperança haverá de que alguma renovação passe a ter lugar na vida nacional. Há um esgotamento generalizado das fórmulas que foram empregadas nos últimos anos pelos políticos. A sociedade não os ouve mais, nem os leva muito a sério. Um resgate terá de ser empreendido: da democracia política, do valor da política e da competição política, das instituições representativas, da integridade ética dos políticos, dos partidos, dos governos, do Estado.

Não é razoável que todos continuem a fazer tudo do mesmo jeito quando tudo parece trepidar e ameaça ruir.