Encontro entre PT e PSDB pode ser mais que um abraço de afogados

Marco Aurélio Nogueira

05 de abril de 2017 | 17h52

Num momento em que más notícias se sucedem, a crise se reproduz e os ânimos permanecem encrespados, a ponto de cegar e confundir, há que se aplaudir a iniciativa dos institutos e fundações ligadas ao PT e ao PSDB de realizarem um encontro para discutir a situação política nacional, dentre outras coisas. O evento deverá acontecer dia 18 de abril próximo.

Não porque os dois principais partidos do País irão se reunir, mas porque o farão por motivos substantivos: encontrar, quem sabe, um eixo com que pensar o Brasil e iluminar os próximos passos do Estado e da sociedade.

Oficialmente, a pauta do encontro será a pesquisa qualitativa feita pela Fundação Perseu Abramo na periferia de São Paulo, que mostrou um cenário preocupante para o PT, de perda de vínculos e baixa consciência política. Mas o encontro certamente incluirá mais coisas, como por exemplo a reforma política e a relação entre Legislativo e Judiciário. Num cenário em que se sabe muito pouco a respeito do futuro, em que a incerteza é alta e as soluções não virão de um dia para outro, a ideia é “reunir a inteligência brasileira para pensar o Brasil além do curtíssimo prazo”, como afirmou Marcio Pochmann, da Perseu Abramo.

Há muito mais pontos em comum entre PT e PSDB do que pensa a vã filosofia. Já andaram juntos, cogitaram de se fundir, cumpriram etapas importantes da agenda democrática e social, como se tivessem combinado de fazer isso. Depois, em decorrência da fumaça tóxica que se abateu sobre o campo democrático e popular brasileiro, entraram em rota de colisão, mergulharam numa luta fratricida pelo poder e arrastaram a opinião pública e os cidadãos para uma polarização autodestrutiva e paralisante. Deu no que deu. Agora, talvez tenha chegado a hora de se tentar limpar um pouco o terreno e de alguma maneira começar de novo.

Será um encontro entre dois partidos que não estão em boa situação, chamuscados pelos desacertos por eles mesmos praticados. O PT ferido pelos desdobramentos do impeachment de Dilma, o PSDB devorado por suas rixas internas e por sua falta de apetite partidário. Ambos também sofrem os efeitos da Lava Jato e das delações premiadas.

Não há, por isso, porque comemorar em excesso o anunciado encontro. Por estarem os partidos como estão, pode ser que tudo não passe de jogo de cena, sem seguimento ou continuidade. Como dois afogados que se abraçam, pode ser que a reunião se converta em manobra defensiva, de autoproteção, dedicada a encontrar um meio de “pacificar” o quadro de desagregação e conter a lava vulcânica que ameaça varrer o sistema político e muitos de seus protagonistas. Mas também pode ser que não, pois espaço para novas florações existe.

Há muitos sinais de que PT e PSDB, por baixo do pano, estão empenhados em fazer com que o barco Temer siga navegando até o fim de 2018, se possível realizando o “trabalho sujo” (algumas reformas indigestas) que ninguém quererá fazer a partir de 2019. Depois de ter subido muito durante o impeachment de Dilma, a temperatura entre petistas e tucanos baixou um pouco. Hoje, todos juram de pés juntos que estão preocupados em “salvar” a política, conter o arbítrio da Lava Jato e destravar o Brasil.

Seja como for, é uma iniciativa a ser acompanhada. Quem sabe nela, sem intenção deliberada, forjem-se algumas ferramentas para a ação política construtiva e se reduzam animosidades improdutivas?

A vida, como se sabe, não se faz por vias retas e nem sempre o bem é produzido por pessoas de bem. Muitas e muitas ações produzem consequências que seus sujeitos sequer imaginavam ser possíveis.

 

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