Em semana de alta intensidade política, crise aumenta um pouco mais

Marco Aurélio Nogueira

04 de março de 2016 | 19h56

Das eleições de 2014 para cá, formou-se no país uma grande onda de oposição ao PT e ao governo Dilma. Ela se compõe de múltiplos personagens: parte da classe política, partidos oposicionistas, formadores de opinião, intelectuais, órgãos da grande mídia, diferentes setores sociais. Ao que dizem alguns indicadores, a onda só fez crescer no correr de 2015, complicando a situação do governo e a crise política.

Lula esteve sempre no centro desta onda, como um de seus alvos preferenciais. Com a delação premiada de Delcídio Amaral, com a condução forçada de hoje, 04/03, que fez Lula comparecer à PF para prestar esclarecimentos e, sobretudo, com as declarações dos representantes do Ministério Público vinculados à Operação Lava-Jato, que põem claramente na mesa a acusação de que Lula foi o maior beneficiário do esquema de corrupção que envolveu a Petrobrás e algumas grandes empreiteiras, a temperatura subiu demais, impulsionando a turbulência política e a exasperação social.

Foi uma semana para nenhum analista político botar defeito. Nela se descortinou uma situação que já foi grave, e hoje é gravíssima. Um ex-presidente acuado pela Justiça, um governo cercado de suspeitas enfatizadas por um de seus colaboradores que há 3 meses gozava de credibilidade e frequentava os salões do Palácio como grande articulador, um partido que esperneia e protesta contra todos os arbítrios mas que não consegue dizer à população o que está de fato acontecendo, nem muito menos qual é sua responsabilidade pelo que está acontecendo.

É insuficiente, posto que surrada e pouco crível, a ideia de que há um golpe contra Lula, o PT e o governo Dilma – um golpe que estaria a ser desfechado por uma inédita articulação entre o Poder Judiciário, o Ministério Público, a Polícia Federal, a grande mídia e os partidos de oposição. Não se trata só de insuficiência: há uma falta gritante de qualidade política na resposta petista à situação. Ela pressupõe a ingenuidade e a desinformação dos cidadãos, não considera que a vida em conexão intensiva é reflexiva, que todos estão tentando processar as informações que recebem, que imagens e sons funcionam como soda cáustica contra as narrativas políticas tradicionais e contra todo e qualquer esforço de vitimização, contra toda ação política que tente esconder o sol com a peneira, que não assuma erros.

Tal quadro político estava delineado já em 2014. Naquelas eleições, muitos se esforçaram para abrir uma pista alternativa, romper com a lógica maniqueísta da polarização PT x PSDB. Tentaram com Marina Silva, mas ela foi sumaria e grosseiramente destruída pela máquina de propaganda petista, que se valeu de procedimentos mais indignos do que os que hoje são denunciados pelo PT e por seus aliados. Mentiu-se, difamou-se, iludiu-se a população, escondeu-se da opinião pública a gravidade de uma situação que, a rigor, estava a exigir opções de maior envergadura. Correntes e personalidades da esquerda democrática tentaram contribuir para o encontro de alguma saída. Foram de Marina para Aécio, com a preocupação de fomentar a recuperação da ideia de uma “frente democrática” que promovesse o reencontro do país com suas melhores tradições.

A vitória de Dilma deixou o país parado no tempo e solto no ar. Reiterou esquemas, práticas e políticas que não haviam dado certo. Anunciou com clareza, logo no dia mesmo da vitória, que a polarização doentia seguiria em frente, como um trator, passando por cima das boas intenções, do espírito crítico, da tolerância, da convivência democrática entre as diferenças políticas. Foi como se aquela vitória despejasse alguns galões a mais de gasolina numa fogueira que já ardia no país.

A ideia de que haveria uma conspiração, um complô do Judiciário, da mídia e da oposição é um equívoco, que só faz jogar mais lenha no fogo.

Haveria algo a ser condenado na investida maciça que as instituições da Justiça estão a fazer? A grande mídia exagera e age como um partido de oposição mais estridente do que qualquer outra agremiação? Há dois pesos e duas medidas na Operação Lava-Jato, que “perdoa” o PSDB e desanca o PT como se o partido fosse o único inimigo público dos brasileiros?

Devemos responder afirmativamente a todos estes questionamentos, do mesmo modo que devemos admitir que o PT praticou sim crimes de corrupção, em parte por injunções do sistema político, com as quais ele conviveu sem qualquer atrito, desonrando as cores da esquerda, em parte para dar viabilidade a um governo minoritário, mediante a compra de votos e apoios, em parte porque alguns dos protagonistas do jogo caíram em tentação. A própria orientação política geral – desenvolver a economia por meio do privilegiamento de algumas grandes empresas – favoreceu a corrupção, foi um seu acelerador, com a aquiescência e o beneficiamento de governantes, ativistas partidários, políticos e empresários.

Se é assim, que sentido pode haver em ficar agitando a denúncia do “golpe” do Poder Judiciário e da mídia contra o PT?

O melhor seria tratar a democracia como um paciente necessitado de uma intervenção regeneradora. Defender a democracia, no momento atual, não é denunciar golpes e conspirações, mas dar livre curso à desmontagem dos arranjos políticos que vitimam a sociedade. É ajudar a que as instituições funcionem, valorizando-as. É cortar a jugular do sistema político viciado, movido a dinheiro e a troca de favores ilícitos, indignos, elitistas e antidemocráticos. É denunciar com firmeza aqueles que enriqueceram, e enriqueceram seus amigos e familiares, graças à manipulação esperta deste sistema viciado. É impulsionar o debate de ideias, o confronto de projetos de sociedade.

O PT nada ganha ao posar como a ovelha negra desta história: todos contra ele, uma alma pura, imune a qualquer deslize. Nada ganha em deificar Lula como se ele fosse o único líder autêntico do país, o único a ser perseguido implacavelmente, o único que pode trazer o céu à terra, o único sábio, honesto e íntegro, numa extemporânea atitude de “culto à personalidade” que não levará a nenhum lugar virtuoso. Nada ganha ao deixar que a hipótese do enriquecimento ilícito passe para o primeiro plano e convença a população. Perde tudo, ou quase tudo, ao construir um cenário (uma narrativa) em que ele, o partido, aparece como um pobre David tendo de enfrentar um Golias golpista, que estaria interessado em destruí-lo.

É uma meia-verdade dizer que a oposição deseja “liquidar” Lula e o PT. Até porque por oposição precisamos entender várias coisas. Ela não existe como um bloco monolítico. “Aniquilar” ou “exterminar” o PT seria operação ainda mais antidemocrática do que deixar impunes os crimes eventualmente cometidos por petistas. Em política, tentar derrotar os adversários é como beber água: não se avança, não se respira sem isso. Mas adversários existem para ser derrotados e respeitados, tolerados e aplaudidos quando merecem.

Parte das oposições e da sociedade pode desejar a morte ou o desaparecimento do PT. Mas o espírito oposicionista mais forte, não: o que ele quer é reduzir o PT à sua real dimensão, fazer com que volte a ser um ator como os outros, que jogue em pé de igualdade o jogo. O PT foi longe demais no manuseio dos recursos de poder e, com isso, se afastou de suas origens, se deixou corromper, ficou poderoso demais, tornou-se a bola da vez, aquele a ser batido.

Claro, há diferenças na formatação de qual seria a “real dimensão” do PT. Para a oposição mais à direita, por exemplo, o tamanho do PT seria o de um rato, que aceite posição subalterna rés do chão. Para a oposição liberal-democrática, é o de um partido que aceite as regras do jogo sem arrogância e sem maracutaias, que aceite governar sem compactuar com o lado podre do sistema político, o “ladro negro da força”. Para a oposição de esquerda democrática, a real dimensão seria a de um partido que não se recuse a governar o sistema, mas que faça isso com os olhos na mudança do sistema, sem se beneficiar unilateralmente das regras sistêmicas. O jogo também poderá ser configurado conforme cada uma destas correntes. Poderá ser mais sujo, mais limpo, ter regras mais ou menos claras, e assim por diante.

De resto, já não dá mais para continuar a ver a grande mídia de modo tradicional, esquemático. É preciso parar de entendê-la como se fosse um extraterrestre com poderes mágicos para dominar os terráqueos e imbecilizá-los em bloco. Há vida inteligente fora dela e sem ela. E o serviço que ela presta à democracia é real, ainda que possa apresentar defeitos e inconveniências.

Neste momento dramático e surpreendente, o mais importante é compreender que um pouco de serenidade e muito esforço para ler criticamente o processo político “duro”, isolando aquilo que é uma imaginação sobre ele, podem funcionar como um recurso revolucionário: fatores decisivos para uma mudança política que se faz a cada dia mais urgente e importante.

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