Em carta enigmática, Temer tenta retomar o protagonismo perdido e aumenta a tensão política

Marco Aurélio Nogueira

08 de dezembro de 2015 | 20h04

Totalmente compreensível o espanto causado pela carta de Michel Temer à presidente Dilma, na qual o vice-presidente abre um rosário de queixas contra o tratamento que tem recebido do governo.

A carta é uma peça que deverá ser ainda objeto de muita avaliação. Tornou-se um documento histórico, tanto pelo inusitado do gesto quanto pelo teor, bastante atípico e surpreendente se se levar em conta o estilo e a experiência de Temer. O que terá ele querido sinalizar? Por que agora? E por que, acima de tudo, a opção foi pela redação de uma carta de caráter abertamente “pessoal”, despida de dimensão política ou programática, como requereria o momento político do País?

A maioria dos analistas  interpretou o gesto de Temer como uma declaração de guerra e, portanto, como um ato de traição. Não é uma avaliação equivocada. As reclamações de Temer remontam ao primeiro mandato de Dilma, no qual ele teria tido um “função meramente decorativa”. Se foi assim, pode-se indagar as razões que o fizeram incorrer no erro e se submeter à mesma humilhação ao aceitar permanecer no cargo no segundo mandato. Descartada a hipótese de uma recaída masoquista, o gesto do vice-presidente pode ser uma tentativa de ficar em paz com sua trajetória política, o reconhecimento tardio de um cálculo equivocado. Com dificuldades para fazer isso de forma direta e clara, ele teria enfatizado uma dimensão mais pessoal que política, na expectativa de encontrar nisso uma justificativa acima do bem e do mal. Optou por uma ruptura aparentemente light.

O fato é que a carta se tornou uma bomba política, de efeito difícil de ser dimensionado. Muitos criticaram Temer por ela, que o “apequenaria” como vice e como presidente do PMDB. E, também, porque não sinalizaria com firmeza o caminho a seguir. A imagem de “Temer, o golpista” não cola bem na figura do vice-presidente e nem ele foi claro na definição de uma posição política sobre o impeachment. Ficou no meio do caminho. Seu tiro pode ter atingido a água, perdendo-se como recurso político.

Se tal leitura for a correta, Temer teria terminado por se converter num político sem proposta, o que é mortal em política. Seria ultrapassado até mesmo por seu próprio partido ou, na melhor das hipóteses, por rachá-lo e enfraquecê-lo.

Há um cenário alternativo, que parece mais razoável e merece ser analisado. Nele, Temer estaria tentando retomar o protagonismo perdido por ele e pelo PMDB, partido que hoje converteu sua divisão inata em algo próximo do absurdo, que corre o risco de perder o bonde da história justo num momento em que tudo parecia conspirar a seu favor. Persuadida pelos recursos de poder postos à sua disposição pela presidente Dilma, a ala governista do PMDB poderia se tornar preponderante no partido, deslocando o grupo de Temer e as demais alas menos governistas, ou independentes. A carta de Temer visaria conter uma sangria que estaria a subordinar o PMDB ao Planalto. De quebra, recolocaria o próprio vice-presidente no comando efetivo da legenda.

Independentemente de saber qual destes dois cenários pode ser aceito como razoável, o fato é que o gesto de Temer teve três consequências evidentes. Uma: deixou claro o peso do PMDB no processo do impeachment, caso ele venha a avançar. Outra: aprofundou a separação entre PMDB e PT, que poderá, em curto espaço de tempo, se reduzir a uma aliança falimentar, restrita a uma articulação entre o PT e uma ala minoritária do PMDB. A terceira é que ele jogou um pouco mais de combustível na fogueira que arde em Brasília.

Não dá para saber para onde irá o PMDB. O gesto de Temer, porém, caso venha a obter ressonância e ser digerido, poderá dar ao vice-presidente uma posição de força que fará com que o destino do impeachment passe perigosamente por suas mãos.

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