Educação desafia e trava o progresso social

Marco Aurélio Nogueira

17 de novembro de 2014 | 11h36

O técnico do Atlético Mineiro, Levir Culpi, na longa entrevista que concedeu ao Estadão de hoje, falou o que corre à boca pequena: “O povo brasileiro é um povo bom, só somos mal-educados. Tudo aqui é mais intenso. A única coisa que é bem lenta, bem calma, é a educação. Se você medir o índice cultural do povo, o número de analfabetos, de ignorantes, é decepcionante”.

Diante de constatações como estas, feitas por uma pessoa acostumada a lidar com boleiros, de pouco serve lembrar que ao longo das últimas décadas nossos indicadores melhoraram, que agora temos universidades ao alcance dos mais pobres ou que nenhuma criança está fora da escola. A população sente que quase nada melhorou. Os estudiosos sabem que o problema é grave e dependerá de muito esforço para ser devidamente equacionado.

A escola e a educação estão no centro das atenções, congestionadas de expectativas, críticas e fantasias. Espera-se tanto delas que todas as suas falhas e limitações tendem a ser amplificadas, num indício claro de que incomodam e causam perplexidade. Há uma falta generalizada de consensos sobre o que fazer. Não sabemos bem que métodos empregar no ensino, no trabalho, na organização da vida e nos processos de deliberação. Nossas decisões são prisioneiras de correlações políticas, de demandas conjunturais e mesmo de algumas modas teóricas, que se sucedem sem parar. Não conseguem expressar nem uma visão articulada de processos que se estendem no tempo, nem uma utopia emancipadora realista. Tendemos mais a informar que a formar, mais a fazer que a pensar. Atuamos mais como administradores que como dirigentes ou líderes dispostos a promover transformações substantivas.

Tudo contribui para que se afrouxem os laços entre a escola e a sociedade, num quadro em que dúvidas e dificuldades pedagógicas somam-se a um complexo conjunto de dúvidas e temores familiares, deixando os estudantes paralisados no meio de tudo, numa espécie de vazio.

Vivemos cercados de incertezas e paradoxos. A época é de ambivalência, insegurança, verdades fluídas. Tudo isto repercute de forma intensa no cotidiano escolar, graças à posição estratégica que a escola ocupa na sociedade. A escola e a educação são vistas como as mais decisivas portas de entrada da “sociedade do conhecimento”. Ao mesmo tempo, desagradam a todos. O único consenso é negativo: a escola que temos não serve. Todos querem mais e melhores escolas, dispõem-se a investir em educação para melhorar a inserção dos jovens no mercado de trabalho, mas todos desconfiam da escola existente, falam mal dela e só conseguem vê-la mediante o que apresenta de falho e defeituoso. Isso vale para os que acessam a escola pública mais precária e para os que utilizam uma escola particular elitizada. São níveis diferentes de insatisfação, mas o denominador é um só: a escola está deixando a desejar.

A escola tornou-se alvo deste descontentamento generalizado porque exprime uma abordagem mal dimensionada. Os diversos sujeitos que falam a respeito da escola partem de supostos distintos e de expectativas muito diferentes entre si.

O mercado pensa uma coisa a respeito da escola, o Estado pensa outra e a sociedade tem uma terceira visão. As famílias esperam que a escola resolva, além das questões propriamente educacionais, vários problemas que antes eram resolvidos no âmbito familiar, sobrecarregando com isso a dinâmica escolar. Seus filhos, porém, têm outras ideias. Professores e alunos chocam-se o tempo todo, como se estivessem a seguir caminhos antagônicos. Pais e mestres não valorizam as mesmas coisas.

Talvez tenha sido sempre assim, não sei. Só que, antes, essas visões contrastantes ficavam represadas, não se traduziam em correntes de opinião, em blocos “ideológicos”, não chegavam à esfera pública. Hoje, esses blocos não só estão soltos, como explodem no espaço público, turvando o alcance de uma visão coletiva mais coesa e “racional”. Acabam por produzir uma espécie de névoa, que torna quase impossível dimensionar a escola de maneira equilibrada.

Tome-se, por exemplo, um dos mais tradicionais dilemas da escola moderna: ensino técnico ou ensino humanista? Por mais que essa seja uma pergunta retórica – já que seus termos não se excluem reciprocamente –, vale a pena considerá-la com atenção. As dúvidas diante do mercado de trabalho, a própria fluidez do universo do emprego atual, as novas profissões que surgem a todo momento, os modos de ser e as aspirações dos jovens de hoje, assim como as expectativas, a mentalidade e as necessidades das famílias, parecem empurrar a educação para um território mais pragmático e operacional, em detrimento do ensino humanista. O mercado mesmo tornou-se uma espécie de “deus” da época, tendendo a funcionar como um parâmetro universal. Essa ambiguidade muitas vezes acaba por repercutir na montagem dos currículos, no tipo de linguagem adotada pelos professores, no modo como ele organiza as aulas, na expectativa que têm em relação à postura intelectual e às atitudes dos alunos. Reflete-se no modo com as escolas absorvem e enfrentam as demandas, as expectativas e as críticas dos pais de seus alunos.

A nossa é uma era de sociabilidade problemática, difícil. Isto não nos está levando à borda do precipício, à decomposição da sociedade, mas está nos pondo diante de muitos e surpreendentes atos que revelam a presença não tanto de comportamentos “desviantes” mas sobretudo de uma certa dificuldade de conviver socialmente. São bons exemplos disto os pequenos incidentes que contaminam o cotidiano escolar – o desacato, o desrespeito, o bullying, a falta de polidez, o desânimo intelectual, o palavreado tosco, a baixa tolerância. Eles destoam num ambiente que, por princípio, está dedicado ao intelecto.

As famílias estão hoje igualmente sem eixo, ressentem-se da ausência de um padrão que possa ser entendido, decifrado e acatado por todos. As relações familiares – entre pais e filhos, entre irmãos, entre maridos e esposas – estão hoje à procura de uma redefinição. Há uma tensão impossível de ser eliminada entre a família tradicional e diferentes propostas de vida familiar alternativa, impulsionadas seja pela cultura da época (fortemente centradas na busca da individualidade e na construção das identidades), seja pelos novos patamares obtidos em termos de direitos humanos. É um fato que deve ser saudado como promessa de um mundo melhor, já que o padrão de família até então vigente continha, como se sabe, muita repressão e muita desigualdade. Era vertical, hierárquico, apoiava-se na autoridade unilateral do pai sobre os demais, com o que conseguia garantir sua aceitação e sua reprodução. Não privilegiava interações de tipo dialógico, abertas, como são as que despontam hoje, ainda tímida e confusamente, das novas formas de família em constituição.

Enquanto essas “novas famílias” não se institucionalizarem plenamente, não entrarem na corrente sanguínea da sociedade, a família viverá em estado de sofrimento, sem poder funcionar de fato como base segura para a fixação de um conjunto de hábitos e valores para seus integrantes, e em particular para as crianças.

Se as crianças saem meio “desnorteadas” de suas casas, por que é que deveriam chegar tranquilas e seguras às escolas? Se em casa a TV e a internet disputam com os pais a formação moral das crianças, será com essa moral midiática e “espetacular” que elas irão para a escola.

O “sofrimento funcional” que se verifica na família não é exclusividade dela. Manifesta-se com intensidade nas demais organizações, das econômicas às políticas e culturais. As organizações de nossos dias precisam gastar excessiva energia para funcionar, produzir e adquirir estabilidade, mas não conseguem eliminar a insatisfação que toma conta de seus integrantes. Não conseguem garantir a lealdade deles, nem fazê-los operar de modo solidário e cooperativo.

A escola está viva como promessa emancipadora. Precisa, porém, de mais apoio social. Sem ter a sociedade funcionando como uma rede de proteção, a escola se fragiliza, torna-se refém do mercado e dos governos. A voz que deve ser ouvida é a da sociedade: ela precisa ter condições de falar mais alto, dizer o que deseja e como agirá.

A escola integra um sistema numa época em que os sistemas estão em estado de sofrimento, em que controles e articulações ficaram difíceis, em que rumos e sinalizações de futuro estão ausentes ou se apresentam muito fracamente. Nossos maiores problemas continuam a ser políticos. Não são de natureza teórica, ainda que as teorias de que dispomos possam não estar sendo suficientes para interpretá-los. São problemas que têm a ver com o vigoroso processo de reestruturação produtiva que temos diante dos olhos e que está “despadronizando” tudo o que se sabia em termos de mercado de trabalho, emprego e carreiras profissionais. Têm a ver, também, com a qualidade dos governos e da democracia, com correlações de forças e estilos de políticas públicas. Têm a ver, por fim, com capacidades sociais, ou com a falta delas, com a força que os personagens do mundo da sociedade civil têm de fixar parâmetros e projetos que deem direção ética e política aos cidadãos.

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