Eduardo Cunha, o relator e a Fortuna de Maquiavel

Marco Aurélio Nogueira

08 Novembro 2015 | 19h55

Emocionante o destino que a Fortuna parece estar reservando ao deputado Fausto Pinato (PRB-SP).

Escolhido relator do processo por quebra de decoro contra Eduardo Cunha, no Conselho de Ética, logo no início de seu primeiro mandato parlamentar, o deputado flutua, no momento, entre o céu e o inferno. Tem uma chance extraordinária, dessas que raramente aparecem, de entrar em sintonia com as ruas, a parte saudável do Congresso Nacional e a opinião democrática, que pedem a cassação de Cunha. Se assim fizer, consolidará uma posição de liderança e tenderá a ser uma referência no Congresso.

Mas o deputado já está a sofrer pressões pesadas — dos aliados de Cunha, do governo, de seu próprio partido — e terá posta à prova sua autoproclamada condição de “independente”, condição esta que hoje é vista como sendo mais propensa a funcionar como linha auxiliar de Cunha. Conforme estas pressões se manifestarem e conforme for sua capacidade de resistir a elas, Pinato traçará sua rota.

O fato de ser estreante pode ajudá-lo a se sair bem da missão ingrata. Não é conhecido, tem poucos relacionamentos, pode ficar menos sujeito aos holofotes e, acima de tudo, contará com o fator surpresa, dado que, a rigor, nunca foi efetivamente testado e ninguém sabe como pensa e age.

Está com a faca e o queijo na mão.

Depois que Eduardo Cunha disse que não tem contas na Suíça, mas sim “trustes”, dos quais seria um “beneficiário em vida”, a lista de crimes pelos quais deve ser cassado e preso aumentou. Agora, não se trata somente de falta de decoro, mas também de agressão à inteligência alheia, enriquecimento ilícito, desfaçatez e prepotência.

Maquiavel converteu a dialética Virtú e Fortuna num dos principais eixos de sua teoria da política. Projetos de poder precisam saber levar na justa conta tal dialética. A deusa Fortuna, por um lado, é caprichosa, imponderável, dá e tira sem aviso prévio. Precisamente por isso, deve ser confrontada para poder ser controlada. A sensibilidade política (Virtù) capacita o ator para tornar vitoriosa uma estratégia política, na medida mesma em que o faz portador do poder de controlar as circunstâncias e as oportunidade abertas pela Fortuna. Desprovido desta sensibilidade, o ator torna-se dependente dos desígnios da Fortuna e não tem como dialogar com ela. No fundamental, trata-se de saber em que medida um ator político sabe se mover conforme as mudanças da situação, as condições objetivas, a dinâmica política e os humores sociais.  Como se diz hoje, vencem os que têm maior capacidade de “ler” a realidade, decifrando seus enigmas e as possibilidades que oferece.

Está no texto de Maquiavel: “o sucesso ou o insucesso dos homens depende da maneira como acomodam suas condutas aos tempos”. A Virtù não concede aos atores poderes ilimitados, mas os ajuda a serem conscientes de suas limitações, com o que podem resistir aos desígnios da Fortuna. Em O príncipe, o florentino observou que pode ser verdade “que a Fortuna seja árbitra de metade de nossas ações, mas, ainda assim, ela nos deixa governar quase a outra metade”.

Pinato poderá mostrar Virtù e crescer, ou desperdiçar a oportunidade que lhe concedeu a Fortuna e desaparecer, engolido pelas enxurradas que costumam arrastar os inexpressivos para as profundezas dos bastidores.

Quanto a Cunha, se antes a Fortuna o contemplou seguidamente, agora parece lhe faltar. Vive uma situação dramaticamente adversa. Para a qual talvez não sejam suficientes os recursos de Virtù que acumulou ao longo do tempo.

Evidentemente, Pinato não é o único a ter nas mãos o destino do presidente da Câmara. Poderá aceitar a denúncia, abrir o processo e ao final a maioria salvar Cunha. Mas, como relator, será um protagonista diferenciado. Que poderá inflar ou murchar.

As cartas serão jogadas nos próximos dias.