E se Moro sair?

E se Moro sair?

Como Bolsonaro abandonou de vez a retórica contra a corrupção e é conivente com crimes no afã de proteger a família, é de se perguntar o que ainda faz Moro no ministério.

Marco Aurélio Nogueira

23 de agosto de 2019 | 12h39

Aceitar ser ministro da Justiça de Jair Bolsonaro foi o maior erro de Sérgio Moro.

Em uma só passada, submeteu a Lava Jato ao governo de plantão e levantou uma poeira de suspeitas sobre a sua desejada imparcialidade como juiz da mais audaciosa operação de combate à corrupção. Se antes havia controvérsias sobre o estilo de investigação e julgamento dos acusados, com a ida ao ministério Moro fez um pacto com o diabo. Subordinou-se a um presidente pouco respeitoso, desinteressado de cumprir liturgias e exigências constitucionais, um governante verdadeiramente desenfreado.

Moro calculou mal, ao achar que teria ampliado seu raio de ação como herói anticorrupção e veria facilitadas suas pretensões de dar início a uma carreira política que poderia levá-lo à Presidência ou ao STF.

Os fatos contam. Oito meses depois de assumir o cargo, Moro só colheu derrotas e humilhações. Tornou-se uma espécie de pau-mandado de Bolsonaro, sem qualquer poder de influência e de reação às investidas agressivas do presidente. Nem sequer tem conseguido nomear auxiliares ou assegurar o controle regimental sobre os órgãos vinculados à sua pasta, como a Polícia Federal. Também não se mostra com força e interesse em se contrapor aos desatinos autoprotecionistas do clã Bolsonaro.

Moro foi desidratando, tornou-se uma figura opaca em um ministério de segunda linha. Justo ele, que foi atraído ao governo com a promessa de que seria a joia da Coroa.

Não há como dizer que Moro reconhecerá o fracasso, assumirá o erro e tomará alguma decisão que faça jus à fama anterior. Poderá resistir até a última gota de sangue e suor, terminando por aceitar passivamente sua destruição pública, o desgaste de sua imagem e a corrosão de sua popularidade.

Como Bolsonaro abandonou de vez a retórica contra a corrupção e é conivente com crimes no afã de proteger a família, é de se perguntar o que ainda faz Moro no ministério.

Pode ser o gosto pelo poder, com suas regalias e sua mise-en-scène. Pode ser um novo cálculo, sustentado pelo suposto de que no Planalto sobrará somente ele no front do combate à corrupção e à criminalidade, com o que poderia recuperar sua imagem junto à opinião pública. Pode ser, enfim, que ele tenha se convencido da força regeneradora do bolsonarismo.

Mas, e se Moro decidir sair, cansado das derrotas sucessivas, dia após dia? E se for demitido?

Poderia causar algum abalo no governo, tirando-lhe das mãos, por completo, a bandeira da moralidade. Poderia assim refazer em parte um caminho do qual jamais deveria ter-se afastado. O governo, porém, viveria alguns dias de mal-estar e desgaste, mas não acabaria. O governo Bolsonaro, afinal, é um governo autista, que segue tão–somente as vozes diabólicas que povoam a cabeça do presidente e de seus filhos. Permaneceria na senda alucinada por onde enveredou. Até quando, ninguém sabe.

Moro perdeu, simplesmente, e ficou sem opções.

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