Duas ou três coisas que precisam ser ditas sobre o governo Dilma

Marco Aurélio Nogueira

22 de setembro de 2015 | 20h09

Repercutindo o calor invernal que faz a cidade de São Paulo suar em bicas, a temperatura política está elevadíssima em Brasilia.

Um governo isolado se vê obrigado a agir, sob pena de fenecer. Ao fazê-lo, porém, colide com todos os que poderiam apoiá-lo. Quer fazer uma reforma ministerial, mas ao reduzir o ministério e cortar cargos de confiança cria atritos com o PMDB, ou seja, com aquele que é hoje o principal fiador da governança e da governabilidade. Se suprimir ou fundir pastas sociais, poderá comprar briga com os movimentos sociais e agravar suas relações com o PT. Não tem como não fazer um ajuste fiscal, pois o quadro de insolvência é real e também porque é o que querem as forças do mercado. Paga-se hoje por erros cometidos lá atrás, o governo come o pão que o diabo amassou.

Ajustes fiscais são sempre sinônimos de desemprego, queda de renda e salário, suspensão de gastos e investimentos governamentais. Anunciam uma era sombria de tristeza e frustração. Não são feitos para conquistar apoios, mas o governo que se aventurar a fazê-los precisará desesperadamente de apoios, sobretudo se a trilha a seguir for democrática. Não adianta dizer que o ajuste será localizado e inovador, não adianta pedir a compreensão do povo, nem tentar apresentar os efeitos do ajuste como sendo de curta duração: ninguém acredita nisso e, quase em cascata, o clima de pessimismo corrói as iniciativas governamentais. Suspender aumentos salariais para o funcionalismo é uma bomba de elevada potência: leva setores com razoável poder de mobilização para a oposição e cria condições para que se trabalhe com menos empenho na administração pública. Rouba lealdades que seriam importantes para sustentar o esforço governamental.

É paradoxal que o governo Dilma procure dar passos para sair da crise mas a cada metro que caminha mais vai se atolando. O paradoxo é tamanho que setores do governo se veem levados a procurar o PSDB para ver se encontram algum apoio em prol da “racionalização” pretendida. Mas como, conversar com os tucanos agora que o circo ameaça pegar fogo? Por que não fizeram isso durante o processo eleitoral, por que atiçaram a massa contra os tucanos, pintando-os como os mais autênticos representantes do demônio neoliberal? E por que o PSDB deveria, justo agora, estender a mão para salvar o PT? Há feridas que não se fecham com facilidade e outras que nem sequer chegam a cicatrizar.

Partidos políticos são seres movidos pelo cálculo eleitoral: pela conquista do poder. Podem ser mais do que isso, e espera-se que os grandes partidos sejam mais do que isso. Mas os nossos partidos não estão no melhor de sua forma. Depois de anos seguidos de uma polarização que jamais teve um componente ativo de dignidade e substância, ficaram viciados em se atacarem reciprocamente. Não se darão as mãos a não ser que se comece o jogo a partir do zero, talvez nem assim. O cálculo tucano supõe que o desgaste do governo Dilma favorece as pretensões eleitorais do PSDB. Let it bleed: deixem-no sangrar até o fim. Não admite isso, mas para o partido pouco interessa a renúncia de Dilma. Caso ela ocorra, poderá servir como recurso para garantir a adesão eleitoral do povo mais à frente, em 2016 e 2018, quando os tucanos se apresentariam como aqueles que ajudaram o País a se livrar de Dilma.

É o contrário do que quer Lula. Ele jamais dirá, mas deve estar torcendo para que alguém convença Dilma a renunciar. O discurso já está até preparado: inviabilizada pelas forças neoliberais, o segundo governo Dilma sofreu um golpe branco, “paraguaio”, mas ele, Lula, estará de volta para enfrentar o dragão da maldade. Com Dilma no cargo, esse discurso não tem por onde passar e sem esse discurso Lula não terá o que dizer nas próximas eleições. Livre de Dilma, o ex-presidente estará em seu ambiente preferido, pronto para arengar e reconquistar o povo.

Há no País uma demanda forte por transformações no modo de fazer política e de organizar o Estado. Isso significa que os cidadãos não mais emprestam lealdade a um sistema que se mostra, para eles, fechado em si mesmo. Querem participar, mas de outro modo. Tal demanda não tem sido atendida. Estamos habituados a considerar que a estrutura institucional vai muito bem, obrigado, que o Poder Judiciário ganhou força e manterá o País na linha, que a população se tornou democrática. Não sei se dá para insistir nisso sem mais nem menos. A vida mudou, mas a política e a estrutura institucional não acompanharam a mudança. Sob certos aspectos, até mesmo se caminhou para trás: os partidos são uma pálida lembrança do que um dia já foram, os cidadãos não querem se organizar como comunidade política à moda antiga, o debate público é de uma indigência a toda prova, engessado pelas piruetas mercadológicos e pelos profissionais de marketing. E se não há debate de qualidade, como é que o povo irá se conscientizar e se engajar nesta ou naquela direção?

O problema não é, portanto, só de liderança: o arranjo como um todo também está defeituoso. A crise não resulta de uma reação da direita, de uma vingança dos derrotados de 2014 ou de um desejo do grande capital. O governo Dilma está fazendo água basicamente por seus próprios erros e pelas escolhas que fez, pelo déficit de articulação que sempre apresentou e que não pôde ser compensado. O mau desempenho da presidente complica o quadro, e uma correção de rota ou uma troca de comando podem ajudar a que se supere a crise em um primeiro momento. Se o arranjo, porém, não for modificado, aquilo que se eliminou pela porta da frente voltará pela porta dos fundos.

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