Duas notas sobre a “guerra” das ruas

Marco Aurélio Nogueira

19 de setembro de 2016 | 16h42

Guerra sem estratégia

A confusão é grande, a agenda é pobre, o vazio propositivo é profundo. Agora se ouve “fora Temer” em missa, na fila do cinema, em programas de TV, em eventos culturais e esportivos. Sinal de que o mote colou. Mais recentemente, agregou-se a ele um pedido por “Diretas Já”, apresentado como expediente que trará de volta “quem nunca deveria ter saído”, com seu “projeto de inclusão que não teve tempo de ser executado”. Agora, trata-se de defender Lula, tido como um perseguido político.

Mas ninguém consegue dizer o mais simples: tira-se Temer e põe-se quem no lugar dele? Para fazer o que, com quais aliados? Quando?

O “fora Temer” é insuficiente como plano de voo. “Diretas Já” não melhora as coisas, em parte por ser pouco factível, em parte por ser vítima de uma ênfase unilateral e abstrata nas eleições como fator de composição da legitimidade reformadora de que o país necessita. Há ainda a descrença popular, a ojeriza contra os políticos, a decepção com eles.

O combate ao que o novo governo vier a conter de regressão terá de buscar caminhos substantivos. Ou não avançará. Ser contra ele por quais motivos, com que perspectiva, com quais forças, com qual programa? Uma agenda alternativa é essencial, e precisará ser definida como se faz com um colar de diamantes: pedra a pedra, cuidadosamente. Não poderá, por exemplo, ser maximalista: não há como fazer tudo de uma só vez e quanto mais genéricas as reivindicações mais estreitas serão as traduções práticas. Uma pauta mínima agrega, uma máxima divide. Isso, aliás, também vale para o governo: ele não veio para “salvar o País” (versão maximalista), mas para encaminhar uma agenda reformadora com a qual se chegar a 2018 em condições mais adequadas para que se tente aprofundar a reforma.

Imaginar que tanta gente democrática e de esquerda reverbera gritos de guerra sem estratégia política dá um nó no peito, uma tristeza que não tem fim. É preocupante demais. Ainda que expresse bem o quadro sociocultural em que vivemos.


Vozes das ruas

Antes havia muitos “Fora, Dilma” e alguns “Venha, Temer”. Massas se mobilizaram para pedir o afastamento de então presidente. Agora, há muitos “Fora, Temer” mas nenhum “Volta, Dilma”. Em vez disso, fala-se de “Diretas já”. É um avanço, que despersonaliza parcialmente a luta política. Mas o avanço soluça e tropeça, porque em torno das “Eleições já” não se organizou nenhuma agenda consistente: como fazer para dificultar que de uma eventual consulta popular venha a emergir algo complicado e regressista? A propaganda agita, mas não abre perspectivas.

As vozes das ruas não dão nem darão qualquer gás ao governo Temer. Ele não conta nem contará com o apoio ativo de alguma multidão. Que, aliás, não é fator indispensável para que se governe: pode ajudar e pode sobretudo atrapalhar, mas não é o que decide, a não ser que se traduza como “revolução”. O programa de ação de Temer, supondo que esteja definido, não é mobilizador, longe disso. O que fará com que siga em frente tateando no escuro. Trata-se de um governo de transição, uma ponte que levará o país de uma situação péssima para uma situação ruim.

Isso, evidentemente, se der tudo certo, ou seja, se o governo governar. É a única chance que tem de se fortalecer: ganhará força na medida em que conseguir governar.

Para entender tudo isso,  é preciso olhar a realidade como ela se apresenta, não como se gostaria que fosse. O governo Temer não é uma “conspiração” dedicada a “operar” as forças progressistas ou a empurrar para trás o carro das reformas sociais. Sua meta é essencialmente regularizar as contas públicas, ou ao menos deveria ser isso, pois aí repousa o que há de consenso em sua base. O resto será parte de uma luta. Achar que o presidente desmontará o que se tem é uma visão simplificada do processo, boa para mobilizar, ruim para analisar. Do mesmo modo, seu problema não é ter o PSDB a seu lado, como tem sido dito por alguns opositores. É ter o “centrão” por perto. É ser chantageado pelas forças regressistas, pelo atraso, pelo passado, tanto à esquerda quanto à direita. É ser bloqueado pelo defensivismo, pelo corporativismo, pela falta de lideranças democráticas, de esquerda ou não, pelos cálculos eleitorais rasteiros, pela má qualidade dos políticos.  O PSDB – independentemente de seus defeitos, que são muitos – é uma espécie de fiador: tentará empurrá-lo para um ajuste fiscal rápido e vigoroso, mas não terá como ceder em termos de direitos sociais e garantias, sob pena de perder a credibilidade que ainda detém.

Bem ponderadas as coisas, é um quadro muito parecido ao que se tinha quando Dilma comandava. Ela cedeu todos os anéis e acabou perdendo dedos e mãos. Foi engolida pelos mesmos atores e as mesmas estruturas que hoje ameaçam Temer. A diferença é que Dilma tinha a seu lado uma organização partidária em tese unida e de massas, ao passo que Temer não tem. Mas podemos perceber sem dificuldade que às vezes o que parece ser força se revela na prática como fraqueza. E vice-versa.

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