Doações empresariais são compreensíveis, mas não são adequadas nem saudáveis

Marco Aurélio Nogueira

07 Março 2017 | 12h31

É compreensível e até aceitável que empresas façam doações a partidos políticos, com suas chapas e seus candidatos.

Partidos não têm recursos suficientes para fazer campanhas eleitorais competitivas. Por culpa deles e da cultura política do país. Militantes e simpatizantes não costumam ser generosos no pagamento de taxas partidárias e os partidos são incompetentes para alterar o quadro. O fundo partidário (público) é fraco. E as campanhas são sempre mais caras, por culpa, aliás, dos próprios partidos, que se entregaram sem vacilação ao mundo do espetáculo político.

E por que as empresas doam? Basicamente, porque ganham isenções e porque põem uma pata no mundo da política, empreendendo uma espécie de lobby light e preventivo.

O problema existe em três casos típicos, que muitas vezes se combinam.

Primeiro, quando os financiamentos são feitos via caixa 2, ou seja, mediante recursos não declarados, problema que é de natureza fiscal.

Segundo, quando os recursos são fruto de propinas, de recompensas por vantagens ilícitas facilitadas por políticos e recebidas de bom grado pelas empresas, caso em que se ingressa no lamacento terreno da corrupção, da lavagem de dinheiro, dos desvios e das negociatas envolvendo atividades e recursos públicos, da troca de favores, e assim por diante.

Terceiro, quando as doações são apropriadas por pessoas dos partidos, ou para impulsionarem suas próprias campanhas pessoais, ou simplesmente para se locupletarem e enriquecerem.

Como provar o que de fato acontece quando uma empresa passa uma grana para o presidente de um partido, um seu representante ou uma mula inocente?

Não é fácil separar o joio do trigo, mas todo mundo sabe que existe o joio e existe o trigo, sendo necessário que se faça alguma coisa para distingui-los.

Esta parece ser a posição para a qual estão convergindo os políticos mais sensatos, de todos os partidos – todos mesmo –, porque todos em algum momento puseram a mão em dinheiro empresarial.

Se se conseguir separar o joio do trigo, nem que seja de forma parcial, ganharão a democracia e a cidadania. Poderemos voltar a pensar no fundamental, naquilo que realmente importa.

Enquanto o bode ficar retido na sala, tudo ficará irremediavelmente empesteado.

É compreensível que empresas façam doações. Mas não é adequado, nem saudável, nem justo.  Ainda mais quando tudo – trâmites, razões, modalidades, quantias, expedientes – está recoberto pela sombra maligna da indefinição e da clandestinidade.