Dissonâncias cognitivas

Dissonâncias cognitivas

No Congresso, as linguagens trombam umas nas outras, alimentadas pela incompetência e pela sabujice

Marco Aurélio Nogueira

27 de janeiro de 2021 | 12h21

Foto Peia S. Dias

Chega a estarrecer a dificuldade que os partidos políticos estão tendo de se posicionar na disputa pelas presidências da Câmara e do Senado. Vários deles agem como baratas tontas, sem saber bem para que lado correr. Na correria, tropeçam e batem cabeças.

Vejam-se alguns pontos.

Comecemos pelo PT, principal partido nacional e importante vetor do que se tem por aqui de esquerda. A impressão é que o partido está literalmente desorientado, ou sem direção. Parece querer ficar bem com todos, governo e oposição. Apoia Baleia Rossi na Câmara, mas dá o troco no Senado, onde circula de mãos dadas com Rodrigo Pacheco.

A justificativa é frouxa. Na Câmara, o petismo diz que vai com a maioria e negociou cargos na Mesa Diretora. Mas, no Senado, alega que não pode dar muita força ao MDB, um dos algozes de Dilma em 2016. Também afirma que Simone Tebet é “lavajatista”, portanto perigosa, e que Pacheco é bom negociador e de trato fácil, seja lá o que se entenda por isso. Não há maior preocupação, nos próceres petistas, em ponderar que essa posição pode facilitar as coisas para Bolsonaro. Ao que tudo indica, essa seria uma questão secundária, a se resolver mais à frente, em 2022. Ou não.

Não será surpreendente se nas urnas de fevereiro, alguns parlamentares petistas votarem na contramão das diretrizes partidárias, em nome da coerência política. Mas também não surpreenderá se houver uma debandada em favor de Arthur Lira. Tudo pode acontecer.

Ainda pela calçada da esquerda, o PT deu o tom para o PDT, que embarcou na mesma canoa. No PSOL, que muitos vêm como a nova força pós-PT, o quadro não é melhor. Ele passou a puxar o bloco do “eu sozinho” com a candidatura de Luiza Erundina, que copiou, com argumentos doutrinários próprios, a atitude dos deputados Alexandre Frota (PSDB), Fabio Ramalho (MDB), Marcel Van Haten (Novo), André Janones e Capitão Augusto, esses últimos do PL.

Claro, há diferenças entre eles. Mas o foco é um só: contestar, marcar posição e aparecer. Erundina não é santa mas merece todo respeito. Tem direito, como qualquer mortal, a uma cota de erros e bobagens. No caso da Câmara, esgotou de uma só vez essa cota, maquiando-a com uma dose extra de purismo. Criou celeuma dentro do próprio partido, o PSOL, acusando os que dela divergem de “negociar apoio” a Baleia Rossi, como se isso fosse coisa suja, um pecado que ela jamais teria cometido. O pau quebrou, a deputada levou uns sopapos de alguns companheiros, esperneou, mas manteve a candidatura.

E quanto ao DEM, partido de Rodrigo Maia? Por lá, a divisão rola solta. Com medo de perder cargos na máquina do governo federal, consta que a ala baiana do partido se bandeou para a candidatura de Arthur Lira, contando com o apoio velado do governador ACM Neto, que preside o partido.

Por fim, é preciso falar do PSDB, esse que um dia se vangloriava de falar pela social-democracia. Hoje reduzido a uma tela de farrapos, abriu uma nova frente de luta interna: para não dar mais força ao governador João Dória, “empoderado” com a iniciativa da Coronavac, algumas alas tucanas passaram a apoiar as candidaturas governistas na Câmara e no Senado. Quer dizer, tratam a postulação de Dória como fato consumado e, para torpedeá-la, se jogam para o outro lado. Alguns falam em apoiar Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, outros dizem esperar a mediação de Bruno Covas, outros ainda afirmam que seria um erro apoiar Baleia Rossi na companhia de  PT e PCdoB. Vão todos trotando na estrada da omissão.

Estima-se que, hoje, cerca de 18 dos 33 deputados tucanos estão de namoro firme com Arthur Lira. Mais da metade, portanto, põe-se fora das articulações oposicionistas. O PSDB, na verdade, não faz oposição há muitos anos. Rompeu com tudo o que celebrou seu nascimento, décadas atrás. É um partido vegetativo, sempre de olho em governos e sem compromissos confiáveis.

Com toda essa movimentação, o pesadelo vai virando realidade. Bolsonaro aumentou as chances de controlar o Parlamento, com o empuxo da sabujice de deputados e senadores. Como escreveu Rosangela Bittar em sua coluna no Estadão (27/01), “a capitulação da Câmara significa muito mais do que engavetar o impeachment. O compromisso inclui a aprovação de políticas contrárias aos interesses da população”.

O Congresso está sendo arrastado pela onda de dissonâncias cognitivas que tem avançado no País. Ninguém se entende, as línguas e linguagens trombam umas nas outras. Na tradução política em sentido estrito, isso produz partidos políticos e parlamentares que não agregam nada, só dividem e criam confusão, de costas para a grave crise em que estamos mergulhados – uma crise que, se depender deles, não será resolvida tão cedo e poderá levar a uma espécie de reload de 2018.

Se o pior prognóstico prevalecer, haverá desdobramentos no curto, médio e longo prazo. Antes de tudo, ficará travado o controle parlamentar dos atos e palavras do Presidente. Depois, o terreno para a disputa de 2022 será aplainado, sem que os democratas percebam.

A aliança entre a dissonância cognitiva e a sabujice tem como patrono a incompetência política, a falta de grandeza e visão nacional.

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