Discurso sobre a mulher mostra Temer alheio à revolução cultural em curso

Marco Aurélio Nogueira

10 Março 2017 | 14h25

O tatibitate reacionário e machista de Temer no Dia Internacional da Mulher conseguiu provocar mais reações negativas, estupor e deboches do que as platitudes e os soluços lógicos de Dilma sobre a mandioca e a estocagem de ventos.

A fala presidencial e muitas das críticas a ela serviram para que constatássemos, mais uma vez, a indigência em que nos encontramos, desprovidos de narrativas políticas consistentes e de um “discurso do poder” articulado com o que a sociedade tem de mais avançado, ou de menos atrasado.

Temer falou de improviso, o que significa que as palavras fluíram do fundo da alma, sem muito cálculo ou cuidado. Deixou claro que é daquele jeito, tem uma visão senhorial e tradicionalista da mulher. Não se preocupou em disfarçar ou matizar isso.

O periscópio do presidente procurava as donas de casa, as mulheres de classe média que vivem no lar e para o lar, os brasileiros mais conservadores. Nem sequer considerou que também deveria falar para as feministas, as mulheres que já se soltaram das amarras do machismo, as que lutam por direitos e identidade de gênero, as trabalhadoras, os intelectuais, os jovens e todas as pessoas que pensam em termos de “primeiramente, fora Temer, depois a gente conversa”.

Foi um duplo erro. Além de desprezar parte importante da sociedade, Temer mostrou que não tem noção do mundo em que vive. Não compreendeu nem assimilou a revolução cultural e de costumes que se tem afirmado ao longo do século XX, especialmente a partir dos anos 60. Não levou em conta as lutas históricas das mulheres, suas conquistas, suas aspirações e demandas atuais, entre as quais o combate à violência machista e à desigualdade salarial tem lugar de destaque. Empurrou as mulheres para os recônditos da vida doméstica, do supermercado, do cuidado com os filhos.

Com isso, maltratou também os companheiros e maridos atuais, que dividem sempre mais as tarefas domésticas com as esposas ou companheiras.

Com a caricatura estereotipada que terminou por fazer, o presidente perdeu excelente oportunidade de abrir um diálogo com o Brasil real que está aí. Trocou-o por um “Brasil profundo” que só existe em estado puro nas rebarbas da vida moderna e está em ostensiva desconstrução.

Temer não vai mudar. Ele é o que temos visto em ação no Palácio. Mas pode tirar algumas lições e refletir.

Pode perceber, por exemplo, que não dá para falar de mulheres em tom regressista, saudosista de um passado vazio de glórias e sem se referir ao cotidiano duro, às batalhas do dia-a-dia e às conquistas já obtidas. Sobretudo se levar em conta que um Presidente da República tem uma sociedade complexa e diversificada diante de si e precisa dialogar com toda ela.

Deveria se lembrar do velho e bom Chacrinha: quem não se comunica, se estrumbica.