Direitistas por conveniência e por convicção embaralham e enfraquecem a direita

Marco Aurélio Nogueira

15 Novembro 2015 | 23h28

Se muita gente de esquerda passa batido pelas diferenças que separam a direita dos liberais, do centro e dos reformistas, acontece ainda pior no campo da direita.

O problema da direita sempre foi e continua a ser o de se combater a esquerda como encarnação do demônio, responsável pelos males do mundo. Para ela, “esquerda” é um universo monolítico, que precisa ser atacado em bloco, sem distinções diversionistas. Deste ponto de vista, a direita é monotemática: afirma-se para negar o que existe em termos de democracia, de progresso social e de temas libertários, usualmente associados à esquerda. Também é refratária aos ideais do liberalismo.

A direita só pode vicejar num território de sombras.

Direitistas por convicção são somente uma parte pequena daquilo que se costuma chamar de “direita”. A maior parte é formada por gente exasperada, incomodada com a situação nacional ou que simplesmente não gosta dos governos que se apresentem como de esquerda. Para essa multidão, que é de direita por conveniência, todos os gatos seriam pardos: socialistas, comunistas, social-democratas, reformadores sociais, populistas, social-liberais, os políticos em geral, todos igualmente culpados pelo custo do Estado, pela falta de desenvolvimento, pela corrupção desbragada, pela precariedade dos serviços públicos, pela desagregação social, e assim por diante.

Dada a dinâmica política atual, em que o PT está no governo e se projeta como coordenador da esquerda, a fúria dos direitistas por conveniência se volta contra os petistas: seriam eles, os “petralhas”, a besta-fera a ser caçada implacavelmente. Do PT para Lula e Dilma a passagem é quase automática, impulsionada por um raciocínio no mínimo discutível: se Dilma é do PT e Lula manda no PT, Lula então manda em Dilma, e tudo deve ser tratado como sendo um rolo só. Que serviria para explicar as mais distintas frustrações. Assim, sem nenhuma outra consideração.

O direitista por conveniência é uma alma ingênua em política. Nem sabe o que possa ser a direita. Hoje, no Brasil, é contra o governo Dilma, acima de tudo, que para ele é um governo de esquerda, sem tirar nem por. Não é ideológico nem programático. Opera com base em desinformações, boatos sensacionalistas e denúncias veementes. Não sabe diferenciar bem esquerda e direita, embora saiba o que deseja: um governo que governe sem incomodar muito os cidadãos, que preste serviços adequados e não “roube”. Como acha que Dilma não está conseguindo fazer isso, descarrega as fichas nela e, de tabela, na esquerda. Estigmatiza, porque este é o procedimento mais simples e fácil: um xingamento serve para desopilar o fígado e demarcar um terreno, uma distância. A estigmatização facilita a extravasão de um mal-estar, de uma pulsão, de um ressentimento.

Se, eventualmente, o PT promovesse a substituição de Dilma e conseguisse aprumar o governo, parte dos direitistas por conveniência desapareceria. Aconteceria o mesmo se Dilma passasse a governar ou Lula reduzisse seu protagonismo.

Os direitistas por conveniência às vezes incorporam certos valores do liberalismo. Podem ser a favor de “menos Estado” e mais “privatização”, por exemplo, ainda que queiram “mais Estado” para que se defendam a propriedade e a segurança pública. Quase nunca batem no peito com orgulho em nome da direita. Não têm credos muito enraizados. São flutuantes e temperamentais. Confusos, muitas vezes. Superficiais. Reitero: são sobretudo contra a esquerda, o que não faz com que sejam necessariamente de direita.

O problema maior é com os direitistas por convicção. Que não escondem a cara. São de dois tipos básicos. Há os doutrinários, que usam luvas de pelica e se escudam em alguma filosofia. E há os grosseiros, os pitbulls, que não acreditam em palavras bonitas mas em ameaças e ação. Para complicar, há também grosseiros que se querem filósofos mas não abrem mão de palavras “fortes”, agressões verbais contundentes, palavrões e etiquetas desabonadoras. Acham que assim passam por “enérgicos”, combatentes que não fazem concessões nem contemporizam com o demo. Todos são visceralmente anticomunistas e contrários à esquerda, mas uns são mais sofisticados e inteligentes do que outros. Nem todos tratam a esquerda como um “imbecil coletivo”, por exemplo. Uns são abertamente xenófobos e racistas, como na ultradireita europeia. Outros atenuam isso.

Alguns destes direitistas surfam no vácuo: vislumbram uma janela de oportunidade, organizam um kit de sobrevivência e um discurso básico, com algumas palavras-chave particularmente eficientes, e saem vociferando por aí. São categoricamente militantes. Entregam-se a uma causa e valem-se de armas que ao longo dos tempos têm demarcado a atuação da direita fanática: contundência verbal, machismo radical, admissão da violência física como tática de convencimento, desprezo pela política, pelos políticos e pela democracia, desejos comunitários refratários à liberdade pessoal, bravatas autoritárias, um antiliberalismo  irracional, horror a políticas de proteção aos mais pobres. Querem um Estado “forte”, autoritário, que enquadre o mercado, a concorrência, a liberdade “excessiva”, os “maus costumes”, impedindo assim a desagregação social e a proliferação dos “genes corruptos” do ser humano.

É um irracionalismo levado ao paroxismo. Que tem servido para incentivar a que alguns dos que são contra Dilma se associem a pautas conservadoras, intervenções militares salvacionistas, re-armamento da população, e outras aberrações regressistas.

Desconfio quando se fala em irrupção e fortalecimento progressivo de uma “onda direitista” no Brasil ou na América do Sul. É uma constatação apressada, que se apoia numa visão simplificada e maniqueísta da política. Um governo de esquerda não precisa ser substituído por outro de direita: pode ser trocado por uma variante da própria esquerda, ou por alguém de centro. A oposição a uma situação tida como de esquerda não é necessariamente de direita. Um candidato conservador como Macri, por exemplo, não deveria ser tachado de “direitista” só porque está na oposição a Cristina Kirchner, vista como sendo “de  esquerda”. O fim do ciclo petista no Brasil não terá como desdobramento lógico ou inevitável a abertura de um ciclo “de direita”.

Podemos dizer que uma proposta neoliberal é de direita? Podemos, claro. Mas a exigência mínima para tanto é que se esclareça bem do que se está falando. Não dá para tratar como neoliberal e, portanto, direita, uma dada posição só porque ela advoga o Estado mínimo ou o ajuste fiscal, até porque isso pode implicar uma exigência técnica impossível de ser evitada. Tanto é assim que muitos governos de esquerda têm praticado políticas neoliberais sistematicamente. Não ocorreria o mesmo se a posição fosse contrária à democracia, por exemplo.

Para falarmos em direita e esquerda, precisamos de substância. Mais densidade, menos adjetivações. Até para que a esquerda não se enfie num buraco em que somente caiba ela.

Há tantas coisas em jogo, tantas palavras a serem mastigadas, tantas nuances a serem consideradas, que chega a ser surpreendente que se embarque sem mais nem menos na constatação de que a direita está com tudo e não está prosa.

Se olharmos com atenção, perceberemos que não há propriamente uma direita organizada no Brasil. Não temos um partido de direita, em que pese alguns partidos servirem de cavalgadura para ela. Representantes parlamentares de direita podem ser contados nos dedos de uma mão, e são todos invariavelmente medíocres. A grande maioria dos que engordam esta posição é composta por conservadores de diferentes tipos, pessoas sem ideologia, sem programa de ação, indivíduos encharcados de uma religiosidade transbordante, ou de uma empolgação reacionária descabida, que estão no Parlamento para fazer a corretagem de algum interesse provincial e que — sobretudo — topam se vender para quem se dispuser a pagar. Nem sempre a mola é o dinheiro: as transações não são assim precificadas, mas viabilizadas por moedas políticas.

Escrevi certa vez, aqui neste blog, que “o amanhã não será de direita”. Nem o futuro distante. Por um motivo simples: sociedades complexas, fragmentadas, individualizadas, com muitas zonas de pobreza e democratizadas como o Brasil não poderão ser governadas sem uma combinação de democracia política, estabilidade econômica, crescimento e inclusão social. Tem sido assim pelo menos desde os anos 1990.

A direita por convicção não pode oferecer isso sem negar seus próprios termos e sua lógica fanática.

Os democratas não deveriam temê-la tanto: deveriam, porém, desmascará-la incansavelmente. Não porque ela possa vencer politicamente, mas porque ela pode vencer ideologicamente, isto é, no plano da cultura e das ideias. A direita por convicção tem condições — até por seu irracionalismo — de envenenar muitas mentes e corações, fazendo até mesmo com que vários direitistas por conveniência se tornem convictos.

Se os democratas e a esquerda democrática permitirem, ou seja, se não travarem o bom combate, o veneno se espalhará. Em termos mais propriamente políticos, seria o caso de dizer: em vez de hostilizarem com desprezo e sem trégua os direitistas por conveniência, os democratas e progressistas deveriam “disputá-los”, mediante estratégias comunicativas e persuasivas inteligentes que explorem os diálogos possíveis e operem como fatores de educação política.