Dilma, o feminismo e o machismo

Marco Aurélio Nogueira

27 de julho de 2016 | 16h03

Discursando em Aracaju num evento para defender seu mandato, a presidente afastada Dilma Rousseff reiterou dia 25/7 as críticas que vem fazendo ao governo Temer. Acrescentou que o processo do impeachment, além de ter uma “razão absolutamente falsa e mentirosa”, também é “machista”, porque “eles acham que as mulheres são frágeis”, ao passo que ela, Dilma, se inspira nas mulheres anônimas brasileiras “que lutam todos os dias”.

Quem criticou a fala de Dilma foi bastante atacado por seus apoiadores. Criticar foi visto como um gesto machista e que incita ao machismo, além, é claro, de ignorar uma das razões mais fortes do golpe. Muitos acreditaram que Dilma estaria pagando alto preço por ser de esquerda e por ser mulher, uma vítima da misoginia que impera na política nacional. E todos os que a criticaram, no caso daquela frase, estariam perfilados entre seus carrascos. Machistas, portanto.

Como assim? O machismo é um dado da vida brasileira, e temos de combatê-lo sempre, de todas as formas e sem papas na língua. A principal destas formas é a postura crítica e séria. Brincar com as palavras, reduzi-las a uma commodity da luta política, só para causar, é o antifeminismo em ação, posto que projeta o feminismo para o terreno do irracional, deseduca em vez de educar, reforça o machismo em vez de enfraquecê-lo. Não pode haver afirmação da mulher se a base que vier a ser usada para sustentá-la for construída por formas delirantes de explicação, ou pelo uso abusivo de fórmulas que desgastam a própria perspectiva feminista, rebaixando-a.

O machismo brasileiro é real, como o é em várias outras sociedades. Trata-se de uma anomalia, que continua a ser anomalia mesmo que se reconheçam os avanços que a luta feminista tem obtido, e que são muitos. Não há como tergiversar diante dele, ou escamoteá-lo, ou encher a boca para falar dele de modo superficial, como agitação, sem densidade cultural ou política. O assunto é sério e deveria ser tratado como tal.

Dizer que o impeachment está associado ao machismo é dessas boutades que não honram nenhuma causa. Impede que se veja a realidade, a escamoteia e distorce. Converte a mulher num subcidadão, um ser passivo sempre submetido à exploração e à dominação masculina. Apresenta a política como uma luta entre sexos e gêneros, não entre classes e indivíduos. Seu mote principal — estou a ser afastada por um bando de homens reacionários por ser a primeira presidenta eleita pelo voto popular no Brasil — mostra bem como falta uma explicação política razoável para o que se passa no Brasil.

Tudo bem que Dilma estivesse falando para mulheres e buscasse sensibilizá-las para a causa do “fora Temer”. Há que se fazer algum desconto aqui, contextualizar a fala, relativizar o tom passional. Afinal, há machismo em tudo o que respira nessa terra brasilis, portanto, também no impeachment. O importante é dar o devido peso às coisas, alcançar o tertium datur. Como Dilma não é uma pessoa qualquer, não deveria tropeçar demais. Afinal, o que se espera dela é que defenda seu mandato, e o faça com competência, pensando no futuro, nos ajudando a prepará-lo.

Com a frase infeliz, Dilma terminou, sem querer, por ser ela mesma machista, na medida em que atribuiu a desgraça dela aos homens, rebaixando sua própria condição feminina. A frase só serviu para reforçar o besteirol que rola por aí, e a presidente afastada jogou no lixo mais uma boa oportunidade de analisar a situação e educar a população que a ouvia.

Mas a discussão continuará. É inevitável, ao menos até que assente a poeira da história.

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