Dilemas explosivos, efeitos colaterais e saltos no escuro

Dilemas explosivos, efeitos colaterais e saltos no escuro

Marco Aurélio Nogueira

08 de junho de 2016 | 12h09

Independentemente de torcidas, que são o que mais se vê por aí, há duas leituras possíveis (dentre outras) dos acontecimentos dos últimos dias, impulsionados pelo vazamento do pedido de prisão, feito pela PGR, de Renan Calheiros, Romero Jucá, Eduardo Cunha e José Sarney, que caiu como uma bomba sobre o mundo político.

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(Foto: Agência Senado e Agência Brasil)

Dilemas explosivos. A primeira delas indicaria que os fatos agravam a situação do já complicado governo Temer, ameaçando inviabilizar seus planos de definir o impeachment e aprovar algumas medidas emergenciais para conter a sangria das contas públicas e recompor a dinâmica política. Fazem isso porque a explosão atingiu a cúpula do PMDB e os estilhaços da bomba caíram como bolas de fogo sobre o que se pode tomar como sendo a “base aliada” do governo interino. Em boa medida, engessou o governo, que não pode apoiar as prisões para não perder o Congresso mas não pode ser contra elas para não perder a opinião pública e o prumo. Dilema complicado, que, de resto, também afeta o STF: o que podem, devem e farão seus integrantes, considerando que qualquer que seja a decisão a Corte estará envolvida no jogo político?

Muita gente se surpreendeu, mas os fatos estavam escritos nas estrelas. Todos os acusados são figuras conhecidas e suas trajetórias já foram suficientemente mapeadas. Pode-se ponderar que a inclusão de Sarney é um ponto fora da curva, dada a incontestável contribuição que o velho político deu à democratização do país. Mas ele se tornou alvo fácil a partir das conversações com Sérgio Machado e é errado pensar que as palavras não o atingiram.

A verdade é que a “classe política” brasileira precisa ser reeducada, para que no mínimo assimile o republicanismo. Precisamente por isso, é surpreendente que, diante dos fatos que gritam, os aliados do deputado Eduardo Cunha continuem indiferentes à marcha das apurações, completamente cegos para as abundantes provas já coligidas, para a desfaçatez e o cinismo do próprio deputado, para os próprios riscos de a ele se associarem de modo tão incondicional. Estão a dar um verdadeiro abraço de afogados, pelo qual pagarão preço alto. Algo simples de se perceber, mas que não tem força para dissolver lealdades cimentadas sabe-se lá com qual argamassa.

O problema é que a pressão posta pela PGR sobre os políticos pode morrer na praia (ser recusada pelo STF) e, pior, gerar um inédito “pacto” defensivo dos parlamentares e dos partidos, que se juntariam para frear não só a Lava Jato, mas qualquer reformismo político mais sério, de que o país necessita desesperadamente. Todos se agarrariam a esta rede de proteção, incluindo aqueles que se sentem hoje os mais prejudicados do universo, ou seja, o PT.

Nova plataforma. A segunda leitura sugeriria que o vazamento do pedido da PGR (e eventualmente o acatamento dele pelo STF) pode ter efeitos colaterais imprevisíveis. Um deles seria o impulsionamento ainda mais categórico da Operação Lava-Jato e a ampliação de seu alcance, com a inclusão na “lista negra” de novos políticos, ao lado dos já fichados (Lula, Dilma, Aécio, Fernando Pimentel, Henrique Alves — uma lista quase sem fim). O sopro republicano que sai das entranhas do Judiciário cairia  sobre a sociedade e o Estado, ajudando a opinião pública a compreender melhor os estragos causados por décadas seguidas de mixórdia entre o público e o privado. Neste caso, as prisões seriam a antevéspera apocalíptica de uma “limpeza ética”, que poderia dar ao governo interino um argumento para se reformular e corrigir rumos, apoiado no medo pânico dos parlamentares e numa provável adesão popular. Tal hipótese, porém, só teria como materializar se as correntes democráticas e progressistas (liberal-democratas, socialistas, esquerda democrática, membros da Rede, do PPS, do PSDB, do PSB, do PT) se dispusessem a corrigir a rota suicida em que estão metidas aproximando-se umas das outras e oferecendo uma nova plataforma de pensamento e ação para o Estado e a sociedade.

Nenhuma destas duas leituras é otimista ou favorável a quem quer que seja. Mas a segunda ao menos abre alguma perspectiva que não seja o salto no abismo.

Saltos no escuro. Alguns dirão: ora, que se chamem novas eleições gerais e o problema estará equacionado. Mas como, com as regras atuais em vigência e com o mesmo padrão de “presidencialismo de coalizão”? Quem seriam os candidatos? Alguma liderança de novo tipo, alguém com musculatura democrática para pegar o touro à unha, alguém que faça mais do que deitar falação e fazer promessas vãs e demagógicas? E tudo isso para quê, para dizer que o povo foi ouvido e haverá então um “governo legítimo”? E quem convencerá os deputados a renunciar, ou a aprovar um plebiscito que imponha uma nova legislação? E que certeza se terá de que o povo votará “sim” num plebiscito deste tipo? E quando tudo isso ocorreria? Até lá, como ficaríamos?

Sei não, mas me parece que essa expectativa não nos levará a lugar nenhum. Assemelha-se mais a um salto no escuro. Poderá evidentemente sair das especulações e se traduzir efetivamente, mas à custa — e somente se — de um macro-acordo político, no estilo do defensivismo acima mencionado e que passará pela desaceleração da Lava-Jato e por arranjos legais que talvez não sejam os mais convenientes. Para se achar uma saída para a crise, talvez se acabe entrando por uma porta que abrirá para uma confusão ainda maior.

A verdade é que nada ajuda e tudo atrapalha. Embaralharam-se os lados do conflito político. Ninguém ganha, perdem todos. Os democratas, que poderiam fazer a diferença, parecem anestesiados, sem capacidade de articular um bloco que dê respaldo à recuperação da política e ao alcance de alguma “normalidade”.

Isso para não lembrar que a esquerda está estraçalhada, se digladiando para ver qual ala é mais “radical” e “intransigente”, sem qualquer plano de voo ou rota de fuga. Correm todos para o precipício mais próximo. Como é difícil imaginar saídas efetivas que não contem com o engajamento da esquerda não dogmática, mais generosa e inteligente, o nó fica quase impossível de ser desfeito.

 

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