“Dicionário” qualifica relacionamento crítico com a obra de Gramsci

“Dicionário” qualifica relacionamento crítico com a obra de Gramsci

Marco Aurélio Nogueira

23 Março 2017 | 10h00

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Antonio Gramsci (1891-1937) é hoje o mais lido e conhecido intelectual italiano. Filósofo marxista, jornalista, crítico literário e político, foi fundador do Partido Comunista da Itália (1921) e um de seus principais dirigentes.

Seus livros e artigos, e especialmente os Cadernos do Cárcere – conjunto de notas e reflexões elaboradas durante os anos em que passou nas prisões do regime fascista de Mussolini, entre 1926 e 1937 –, são uma consistente referência para a pesquisa e o pensamento  político democrático e de esquerda. Gramsci era comunista e dirigente partidário, mas era também um intelectual inquieto, meticuloso, aberto ao mundo e às múltiplas correntes culturais e filosóficas. Reunia a vontade de mudar com a vontade de conhecer,

Parte importante de seu léxico conceitual introduziu inovações na teoria política e social contemporânea, influenciando a sociologia, a antropologia, os estudos pedagógicos e de comunicação, além, evidentemente, da ciência política.

É o que acontece com os conceitos de hegemonia, sociedade civil, classes subalternas, revolução passiva e consenso, dentre outros, que ocupam lugar de destaque nas discussões atuais. O próprio método reflexivo de Gramsci, sua interpretação menos “determinista” da filosofia de Marx e sua valorização dos intelectuais, do senso comum, da cultura popular e da dimensão cultural da política, têm servido para o que se vem fazendo, há décadas, em termos de renovação e atualização do marxismo.

Apesar disso – ou talvez precisamente por isso –, Gramsci é recepcionado, ainda hoje, de modo abertamente controvertido, repleto de manipulações e simplificações. Há os que o descartam como a última encarnação do demônio e o apresentam como a quintessência das filosofias dedicadas a “corromper as mentes jovens” e a introduzir um novo “veneno” (a valorização da cultura) para destruir o mercado e as liberdades. E há, no extremo oposto, os que tratam Gramsci como o derradeiro santo da revolução, aquele que romperá finalmente as portas da opressão. Uns e outros o utilizam para vender os próprios programas políticos e ideológicos.

Tanto num bloco quanto em outro, há muitas versões de Gramsci em circulação, competindo entre si.

No meio dessa disputa insana e caricata, flutuam inúmeros leitores de Gramsci, que nele buscam sugestões para a compreensão e a transformação democrática do mundo atual.

Nesse ambiente, circulam diferentes interpretações a respeito do que Gramsci realmente quis dizer com seus conceitos inovadores e sua teorização heterodoxa. Tal fato, somado ao caráter pouco sistemático dos textos gramscianos, compostos por anotações, artigos de ocasião, reflexões soltas e documentos partidários, tem feito com que haja grande confusão terminológica e muita imprecisão conceitual, cujo efeito principal é reduzir e empobrecer a coerência de sua proposta teórica.

Pensando em contribuir para pôr um pouco de ordem nesse ambiente, os professores e pesquisadores italianos Guido Liguori e Pasquale Voza organizaram o Dicionário gramsciano 1926-1937, que apresenta, pela primeira vez, todo o léxico específico do marxismo de Gramsci, reconstruindo e detalhando o significado das palavras e dos conceitos presentes em seus textos.

O Dicionário chega agora ao Brasil, num momento excelente, traduzido e publicado pela Boitempo Editorial, com apoio da Fundação Astrojildo Pereira (R$ 125, 831 págs.).  Trata-se de uma obra única, abrangente, que dialoga especialmente com os Cadernos do cárcere, as Cartas do cárcere e os Escritos políticos de Gramsci, publicados pela Civilização Brasileira entre 1999 e 2005.

Trata-se de um esforço coletivo, de caráter filológico e filosófico, que mobilizou o trabalho de dezenas de colaboradores de vários países (Brasil incluído). São 600 verbetes, que conjugam rigor científico e clareza de texto, operações essenciais numa obra que pretende contribuir para o estabelecimento de parâmetros teóricos mais consistentes e a divulgação do pensamento de Gramsci.

A linguagem de Gramsci é específica. Traduz as reflexões criativas feitas pelo dirigente comunista no cárcere, concentradas na reelaboração teórica do marxismo e particularmente de sua teoria política. Como explicam Liguori e Voza, o léxico gramsciano “inventa palavras novas e reinventa palavras velhas mediante a incorporação enriquecedora de significados distintos”. É uma linguagem que surpreende, instiga, força à reflexão e ao uso da imaginação. Multicolorida, nem sempre sistemática, aberta a múltiplas interpretações: quer dizer, sujeita a uma plasticidade que dificulta o estabelecimento preliminar de entendimentos categóricos. Um dicionário, portanto, torna-se parte estratégica de toda operação intelectual dedicada a emprestar rigor ao relacionamento crítico com a obra de Gramsci.

O Dicionário gramsciano irá se tornar obra de referência fundamental. Os que se remetem ao pensamento de Gramsci, e com ele dialogam de diferentes maneiras, só terão a ganhar com a difusão da iniciativa. O mesmo ocorrerá com os que desejam se apropriar de um guia de leitura e de um arcabouço teórico para a compreensão dos conceitos de um dos mais importantes pensadores marxistas, leitor atento das aventuras da modernidade.

Particularmente para os intelectuais, os militantes e os políticos brasileiros, o Dicionário pode dar importante contribuição para que a serenidade e a seriedade reflexivas caminhem ao lado da crítica rigorosa do mundo em que vivemos. Pode ajudar a que se calibre melhor a indignação e se potencialize a política para que impulsione a formação de uma sociedade mais justa e igualitária. Coisas que, como sabemos, estão em falta no Brasil atual.